Distraída ou avoada? Tanto faz. O certo é que, quando não estou fazendo alguma coisa muito específica, tenho esse “problema”.
Em qualquer lugar, eu me distraio com qualquer coisa. Estou no consultório do oftalmologista lendo uma revista. Deveria ser a primeira consulta do período. Entra uma moça muito simpática, diz-me boa-tarde e, o que é raro, começamos a conversar.
Professora como eu, o assunto vai para a educação e a escola dos tempos atuais. O médico entra, informa que ela será atendida na minha frente, porque vem apenas confirmar uma consulta anterior. Tudo bem. Compreendo. Permaneço sentada no mesmo lugar, aguardando a minha vez.
Uma segunda moça entra na sala e senta-se ao meu lado. Não responde ao meu boa-tarde e limita-se a tirar o smartphone da bolsa. Deve estar de mau humor, penso com meus botões. Começa, ao que parece, a assistir a um vídeo em alto e bom som, sem se incomodar com o fato de que poderia estar me incomodando.
Continuo a ler a mesma revista esperando que ela tenha a boa educação de usar fones de ouvido e acabar com todo aquele barulho. Qual nada! Faz-se de morta.
Imediatamente me lembro de um dito popular, que o poeta Manoel de Barros transformou em aforismo: Coisa que mais tem no mundo: gente besta e pau seco. Fiquei em dúvida se tinha ao meu lado uma ou outro... Diante da impossibilidade de prestar atenção no que lia, começo a me distrair com os cartazes de anúncios de lentes de contato.
De repente, a moça mal-educada se levanta, pega o próprio prontuário e, pasmem, passa na minha frente sem a menor cerimônia e entrega os papéis para o médico. Enquanto eu me distraía aborrecida com suas atitudes, ela percebeu que a porta do consultório tinha sido aberta e zupt! Furou a fila... Reclamei na recepção, reclamei com o médico, que, constrangido, pediu mil desculpas pelo ocorrido. Decidi imediatamente quem era o pau seco e quem era a besta.
Na mesma semana, fui ao supermercado e, como a lei me dá esse direito, entrei na fila do caixa das prioridades, onde uma senhora terminava de pagar suas compras e, depois dela, duas mocinhas, bem jovenzinhas, já haviam depositado uma compra enorme na esteira.
O próximo era um senhor que estava antes de mim. O caixa pediu que ele passasse à frente delas, que já fizeram cara de enjoadinhas e se justificaram dizendo que, quando entraram na fila, não havia outras prioridades, só elas. Ok.
O caixa pede que eu passe à frente delas também e elas resolvem encrespar. Resposta dele: se eu deixar vocês passarem na frente e alguém reclamar, perco o emprego. Ponto!
Fila é uma coisa democrática e sei que precisa ser respeitada. Muitas vezes me irrito com a demora, mas não há o que fazer, só esperar a vez. Entre paus secos e gente besta, reconheço que a distração foi minha, no primeiro caso, porque me irritei com o barulho do telefone da moça mal-educada (sem imaginar o quão mal-educada ela poderia ser) e, no segundo caso, a distração foi das mocinhas enjoadinhas, que não sabem como funcionam as filas de prioridades.
Nada contra a mocidade. Tudo contra a distração e a falta de educação. Haja pau seco!