Artigos e Opinião

CENAS

Oswaldo Barbosa de Almeida: "O amor é passageiro"

Advogado e escritor ([email protected])

Redação

18/08/2016 - 04h00

Luiz Alfredo era bancário e exercia a função de subgerente da agência de um banco em Aquidauana, mas morava em Campo Grande. Assim, todo domingo à noite tomava o trem de passageiros com destino a Corumbá, mais ou menos às dezenove horas e trinta minutos, desembarcando na Princesa do Sul cerca de meia noite. 

Durante a viagem ficava no vagão-restaurante, onde jantava e bebia cerveja, às vezes lia um livro, sempre sozinho. Como levava pouca bagagem, descia do trem e ia a pé para o quartinho da pensão onde fazia suas refeições e dormia.

Trabalhava durante a semana e, nas sextas-feiras, também em torno de dezenove horas, embarcava no trem que vinha de Corumbá em direção a Bauru, descia em Campo Grande e tomava uma charrete para ir para casa. Era casado, sem filhos, e sua mulher reclamava de suas ausências. 

Essa era sua rotina, que um dia foi quebrada, ao perceber, no restaurante, uma garota muito bonita, sozinha, bebericando um refrigerante e comendo pastéis. Ficou observando-a por algum tempo, até que seus olhares cruzaram-se e ela sorriu discretamente. 

Ele sentiu-se encorajado e acenou para ela, que correspondeu; não teve dúvidas, levantou-se e foi para a mesa dela, que o recebeu sorridente. Apresentaram-se e conversaram até o final da viagem. Ela afirmou viver da renda de uns imóveis recebidos em doação de um velho tio sem herdeiros, e vinha com frequência a Aquidauana, para passar uns dias na casa de parentes seus. 

Ele quis saber quem eram esses parentes, pois, no banco, conhecia muita gente, mas ela desconversou. Ao desembarcarem, ele se ofereceu para levá-la de charrete até o endereço para onde ia, mas ela recusou e tomou uma condução sozinha, seguindo ele para sua pensão.

Na semana seguinte coincidiu de se encontrarem novamente no vagão-restaurante; ficaram conversando durante todo o percurso. Na chegada, outra vez ela recusou a oferta dele de levá-la em casa, embora ele insistisse. Ele sentiu que ficava cada vez mais atraído por aquela misteriosa donzela. 

Na terceira vez em que viajaram juntos, de novo ela dispensou a carona por  ele oferecida; foi quando ele decidiu descobrir-lhe o endereço. Esperou-a embarcar numa charrete, tomou outra rapidamente e pediu ao condutor para segui-la. Sua decepção foi terrível: ela desceu do veículo e entrou num conhecido prostíbulo. 

Como estavam a curta distância, na sombra de uma árvore, ele apontou-a e perguntou ao charreteiro se a conhecia, tendo este afirmado que a moça era bem conhecida e trabalhava no local havia bastante tempo. Abalado, foi para seu quarto de pensão e ficou acordado até o amanhecer.

A sexta-feira daquela semana coincidiu com o feriado de aniversário da cidade e, por isso, ele voltou para casa na quinta à noite. Entrou silenciosamente, como sempre fez, a fim de não acordar a mulher. Como desgraça pouca é bobagem, deparou-se com outra cena arrasadora: sua esposa estava na cama, com outro homem, o qual, nu e apavorado, agarrou suas roupas, saltou a janela e escafedeu-se. 

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