Artigos e Opinião

CRÔNICA

Raquel Naveira: "Pôr do Sol"

Raquel Naveira: "Pôr do Sol"

Redação

23/08/2016 - 04h00

Nesta marcha para o Oeste, reencontrei o prazer de assistir ao pôr do sol. Fecho as portas, abro as janelas, vou até a varanda e estarreço diante da beleza do pôr do sol (há beleza, mesmo no infortúnio).

Lembrei-me do Pequeno Príncipe, personagem de Saint-Exupéry. Era tão melancólica sua vidinha lá no asteroide minúsculo onde morava, que sua única distração era ver a doçura do pôr do sol. 

Bastava recuar um pouco a cadeira e ele contemplava o crepúsculo todas as vezes que desejava. Um dia, confessou ao piloto que vira o sol se pôr quarenta e três vezes. Explicou que, quando a gente está triste demais, gosta do pôr do sol.

O amigo lhe perguntou se ele estava triste assim naquele dia, mas o principezinho não respondeu.
Carrego um sol rubro dentro de mim. Constelações e cacos de estrelas também. Algumas delas piscam as pontas e se confundem com vaga-lumes. Sou crepuscular, mulher da fronteira.

 Amo o pôr do sol como o Pequeno Príncipe. Hora da saudade, do desejo de sonhar, da vontade de viver e de morrer. Embora sinta o declínio das minhas capacidades físicas e a chegada sorrateira da velhice, o pôr do sol me faz pensar que tudo ficará melhor quando a noite baixar de vez, toda preta.

Deus é o artista que pinta o céu sempre de forma diferente. Borrões, pinceladas grandes que brilham enchendo a tela de cintilações.

Hoje há um pouco de amarelo, de lilás e de magenta. Cada um desses tons poderiam ser captados pelas lentes de um fotógrafo do Cerrado ou por Monet, o criador do impressionismo, das ninfeias, dos jardins com pontes sobre lagos, dos pingos de sol refletidos na água e no horizonte. Fico treinando o olhar, enquanto os raios penetram meu corpo com suas hastes de crisântemos.

Escrevi certa vez um poema que começava assim: “Em Madri / Ninguém sabe como é o pôr do sol daqui”. E brotaram comparações com a imaginária Espanha: como um touro na arena esvaindo em sangue; como as mãos do toureiro apanhando uma rosa atirada na areia pela amada; como o rebelde executado de braços abertos, vidrado de terror, naquele célebre quadro de Goya, “Os Fuzilamentos do Dia 3 de Maio de 1808”; como o leque de uma dançarina de flamenco; como a angústia dos sobreviventes depois da guerra civil, do assassinato do poeta Federico García Lorca numa vala de montanha e do martírio de Guernica. 

Aqui, o pôr do sol tem garças róseas que pousam em porteiras; pelegos espalhados pelos pastos alaranjados do céu. Aqui o pôr do sol pode ser chamado de “crepúsculo”, de “quiriri”, de “lusco-fusco”.

 Exige que, mesmo que se acendam ao longe as lâmpadas da cidade e os olhos dos jacarés nos pantanais, peguemos, nos armários antigos da memória, tocos de velas que se consumirão em chamas vermelhas e azuis.

A viagem para o Oeste foi uma volta para casa, para o meu planeta. Cada pôr do sol é um instante suspenso. Além da noite, eu sei, há novas auroras. Como o Pequeno Príncipe, coloco minha cadeira na varanda e me encharco de pôr do sol.

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