Artigos e Opinião

CENAS

Oswaldo Barbosa de Almeida: "O amor é passageiro – II"

Advogado e escritor ([email protected])

Redação

01/09/2016 - 04h00

Na crônica anterior (18 de agosto), contei alguns lances da rotina do bancário Luiz Alfredo, que residia em Campo Grande e trabalhava em Aquidauana. Porém, esqueci-me de esclarecer que ele possuía uma espécie de diário, onde registrava os principais fatos e acontecimentos de seu dia a dia, pois agasalhava a pretensão de, futuramente, publicar um livro. Em suas noites solitárias na pensão e durante as viagens de trem, ia lançando os registros num caderno do tipo escolar. Naqueles dias, em que ocorreram os fatos já narrados, ele anotou, entre outras coisas: 

“27 de julho. Hoje é domingo e, como faço há vários anos, estou no trem noturno da Noroeste do Brasil, rumo a Aquidauana, para mais uma semana de trabalho no banco. Ao sair de casa, hoje, minha mulher fez uma cena desagradável, dizendo que não aguenta mais essa situação, de passar a semana toda sozinha. Mas a culpa é dela, pois, quando assumi o cargo em Aquidauana, fomos juntos a fim de escolher uma casa para alugar, mas, depois de uma semana lá, ela retornou dizendo que jamais moraria naquela cidade tão quente. Ela diz também sentir falta de um filho, e insinua que seria eu o culpado pela inexistência dele. Vai saber. Fazer exames? Bem, aqui estou bebericando uma brahma geladíssima e saboreando umas costelinhas de pacu fritas, enquanto o trem sacoleja velozmente na escuridão da noite. Estou observando numa das mesas próximas uma bela garota, de tirar o fôlego. Está sozinha; em dado momento nossos olhares cruzam-se e ela sorri. Aceno e ela corresponde; vou rapidinho para sua mesa. Daí em diante conversamos até o final da viagem. (...). Chegando, ofereço-me para levá-la em casa, mas ela recusa e vai só (...).”

“3 de agosto. Domingo à noite, novamente a bordo do trem da NOB, indo para Aquidauana (...). Coincidência: de novo encontro a garota da semana passada. Conversamos muito. Ela é muito bem humorada e tem um papo agradável, mas quase não fala de si. Disse que vai para a casa de uns parentes, mas não diz quem são. Ao chegarmos, novamente ofereço-lhe carona e, outra vez, ela recusa (...).” 

“10 de agosto. De novo no vagão-restaurante do trem, rumo a Aquidauana. E mais uma vez encontro a formosa garota que despertou-me fortes sentimentos e me fez companhia nas duas noites anteriores. Sentindo-me seriamente atraído por ela. Jantamos, tomamos cerveja, conversamos e rimos muito. Tento falar-lhe de minha paixão, mas ela ri e desconversa. Chegando à cidade, de novo ela recusa minha carona. Resolvo, então, segui-la, pois preciso saber mais sobre sua vida. Para minha tristeza, ela desembarca em frente a um prostíbulo e entra. Indago ao meu charreteiro se a conhece e este afirma ser ela muito conhecida na cidade, trabalhando há bastante tempo naquele local (...).” 

“14 de agosto. Sendo amanhã, dia 15, sexta-feira, feriado pelo aniversário de Aquidauana, antecipo minha volta para casa, hoje, sem avisar a esposa, a fim de fazer-lhe uma surpresa. Tenho certeza de que ela vai gostar.”

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