Em entrevista, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, especulou sobre perspectivas e expectativas em relação ao novo governo federal. Assim como a maior parte da grande imprensa, ele também insistiu na prescrição de remédios amargos para a recuperação econômica, deixando entrever que, mais uma vez, a conta deverá ser paga pela base da pirâmide, aí incluída a classe média. Ninguém cogita, por exemplo, tributar as grandes fortunas (cujo imposto está previsto desde 88, no art. 153, inciso VII da Constituição Federal, restando apenas regulamentar sua aplicação), ou o capital financeiro, setor que exibe desde sempre lucros extraordinários, seja qual for a conjuntura.
De passagem, ele lembrou que nos anos 70, quando era prefeito, o Brasil tinha um PIB que crescia 12% ao ano, época do chamado “milagre brasileiro”. Fez a menção para dizer que o país já teve uma economia vigorosa e, portanto, há condições de se “virar a página”, jargão forjado para se referir à importância de se assumir uma nova realidade política. Todavia, busca no passado o argumento para sustentar a sua tese.
De fato, durante a fase mais dura, em meio ao horror da ditadura militar, o crescimento era de 12% ao ano, o que representa dobrar o tamanho da economia a cada cinco anos. É um resultado fenomenal, visto isoladamente. Acontece que isso era possível combinando a miséria da população, cujas condições de vida se degradaram em todos os estratos sociais, exceto a elite, com agressiva política exportadora, quando se cunhou o slogan “exportar é o que importa”.
A Guerra do Petróleo joga para a estratosfera o preço do produto, do qual as economias desenvolvidas dependiam, por isso as exportações sofreram enorme baque. Como o mercado interno estava comprimido por salários baixíssimos e emprego insuficiente, entra-se na década dos 80, a dita década perdida, em aguda crise.
Paralelamente, em 72, registra-se nas periferias da Grande São Paulo um surto de meningite, doença que se encontrava controlada desde os anos 40. Em 73, ele recrudesce, mas nada se fez. Até que, em 74, de São Paulo a pandemia se alastra para a América do Sul, não sendo maior sua proporção porque os Andes e a Amazônia serviram de barreira. O que isto tem a ver com a economia? Tudo. Não se cuidou dos surtos porque estavam atingindo a massa sobrante, aquela população pobre, que não conta; para que investir na sua saúde? Mas os micróbios desconhecem barreiras sociais e, em 74, bairros nobres de São Paulo foram afetados e gente rica morreu ou ficou com sequelas, como os demais. Aí, medidas foram tomadas, vacinação providenciada, mas o estrago estava feito.
Esse episódio serve para ilustrar, com clareza, a distinção entre “crescimento econômico” e “desenvolvimento”. No primeiro, a economia pode crescer (como de fato crescia a taxas anuais de 12%), sem que isso represente qualquer benefício para a população, pois, se essa riqueza não é adequadamente distribuída, não servirá para assegurar a promoção humana (vide pandemia da meningite). O segundo, ao contrário, requer o crescimento da economia, porém, com vistas a usar esse resultado para atender às demandas sociais de toda a ordem. Portanto, não se podem tomar ambos os termos por sinônimos porque crescimento, por si só, não garante desenvolvimento.
Já que Geraldo Alckmin tirou do armário esse esqueleto da ditadura militar, é importante, principalmente para as novas gerações, ter clareza das condições em que vivia a sociedade brasileira e em que operava a nossa economia. Rememoremos a severa crítica que se fazia a esse modelo, por ser extremamente concentrador de renda, quando Delfim Neto, ministro da fazenda, respondia que era preciso esperar o bolo crescer para depois reparti-lo. O bolo embatumou, riqueza alguma foi repartida e o “milagre” se revelou uma fraude. Portanto, se é para buscarmos inspirações para o momento presente, fujamos desse paradigma de triste memória. O povo brasileiro merece mais e melhor do que a reedição de charlatanismo travestido de milagre.