Memória é algo que a gente tem, mas não se lembra. Minha garrafa de café tem memória: uma mancha escorrida do bico até a base de seu corpo. Branca, ela traz a marca das tantas vezes em que foi aberta para deixar sair o líquido quente até a xícara.
Impregnada dessa repetição, ela nem se dá conta do que me faz pensar. O cheiro de café pela manhã sempre me recorda meu pai. Ele era o primeiro a acordar em nossa casa de infância e fazia o café. Para ele, depois do café, o cigarro. Não sem antes levar uma xícara para minha mãe, que ficava na cama rezando e depois dava conta de pôr os cinco filhos para a escola.
Memórias, lembranças, recordações. Não importa. Elas estão lá, em algum canto das nossas vidas. Um especialista em refletir sobre o mundo contemporâneo diz que somos hoje, mais do que nunca, seduzidos pela memória e que vivemos negociando o jogo entre o tempo contínuo e a pontualidade do instante.
Nossas histórias são contadas a partir do que vivemos, lembramos e esquecemos. Por exemplo, passei grande parte da minha vida no campus da UFMS. Chegava muito cedo, estacionava meu carro sempre no mesmo lugar e seguia para o CCHS, dando bons-dias para colegas, alunos e funcionários. Conhecia praticamente todos.
Até as goteiras que, se à época eram novas, hoje se tornaram eternas. Estão lá para não me deixar esquecer. Mas posso lembrar, também, que na minha sala havia uma cafeteira elétrica, o que provocava o encontro com todos os colegas do Departamento de Letras.
Gosto de lembrar que o mais assíduo frequentador era o Horácio, professor de Latim, amado por todos, e que a ideia de me deixar responsável pela máquina foi da Regina, minha amiga desde os tempos de Araraquara. Mais uma vez, lembranças com café.
Para não perder o fio, em Araraquara, o café na casa da minha tia era feito no coador de pano. Tia Alba, toda encurvadinha, adaptou uma mesa mais baixa onde ficava o suporte. Depois de coado no bule de metal, era colocado numa frigideira com água e ficava até o fim em banho-maria, quente o suficiente.
Mas, às vezes, fervia... que lástima! E era na cozinha que nos reuníamos para gralhar. Minhas quatro primas e eu. Até hoje fazemos isso. Na rua, o Café Municipal também era um ponto de encontro da turma da faculdade, quando se tinha dinheiro. Quando não, o bar do português era suficiente.
Uma história que nunca mais esqueci é o título de uma videoinstalação da artista brasileira Rosana Palazyan, descendente de armênios. Convidada para participar da última Bienal de Veneza, usou o café para contar suas lembranças da família. Mais precisamente, usou o bordado e a cafeomancia, que é a leitura do destino, da sorte ou do azar, a partir da borra do café acumulado no fundo da xícara, um costume dos povos árabes. Pôde, assim, com sutileza e competência, contar a diáspora armênia manchada pelo esquecimento e não reconhecimento. Vale a pena conferir.
Hoje, ainda tenho por hábito encontrar amigos e amigas para tomar café. Um bom motivo para trocar ideias, fatos, lembranças e afetos. Tendo a concordar que a memória é sempre transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento, porque humana. Um pingo de café equivale a um passeio no tempo. Sem datas.