Voltemos ao bancário Luiz Alfredo, ao momento em que ele, chegando de surpresa em casa, encontra sua mulher na cama com um estranho. Tendo o outro escapulido pela janela, ficou o casal frente a frente. Ele sacou um revolver de sua pasta e disse à mulher que iria matá-la. Ela gritou, jogou-se ao chão chorando e, ajoelhada, implorou-lhe clemência.
Ele baixou a arma, guardou-a na pasta e saiu rumo à casa de seus pais, onde passou o resto da noite. Não conseguiu dormir, levantou-se bem cedo e explicou aos genitores o que havia ocorrido. Dias depois registrou em seu diário:
“25 de agosto. Só hoje tive tranquilidade para fazer minhas anotações, depois do que ocorreu em casa. Pedi ao banco minhas férias vencidas, a fim de resolver minha vida. Já procurei a mulher que me desonrou e fomos a um advogado para providenciar o desquite. Ela não fez nenhuma exigência. Nem poderia! Vamos vender a casa e dividir o dinheiro. Em breve retorno a Aquidauana, desta vez em definitivo; resolvi morar lá de agora em diante.” (...).
“30 de setembro. Há duas semanas estou instalado em Aquidauana, onde comprei uma boa casa. Não consigo esquecer a garota que conheci no trem no mês passado. Depois da decepção que tive com ela, tenho pensado muito a seu respeito. Hoje vou procurá-la onde estiver, pois preciso falar-lhe. Sei que não vai ser fácil.”
“1º de outubro. Ontem encontrei-me com a garota por quem me apaixonei. Foi uma situação constrangedora; ela ficou surpresa em me ver ali, mas concordou em conversarmos. Expliquei o ocorrido comigo. Falei-lhe que, apesar de tudo, eu estava cada vez mais apaixonado por ela, e que a desejava só para mim, tendo ela, novamente, emitido uma gargalhada. Disse-lhe que era sério e convidei-a a ir morar comigo. Depois de muito conversarmos a respeito, ela pediu um tempo para pensar. Concordei e prometi voltar alguns dias depois.” (...).
“9 de outubro. Resolvi dar um tempo à garota. Aguardei exatamente uma semana e ontem voltei lá. Ela recebeu-me preocupada e pusemo-nos a conversar, quando ponderou a respeito de sua situação, que era conhecida de muita gente na cidade e me colocaria em posição difícil, etc. Disse-lhe que não me importava com nada disso, que estava disposto a enfrentar qualquer dificuldade e, desde que ela me aceitasse e me respeitasse, nada mais importaria. Ainda indecisa, ela pediu o telefone do meu trabalho para dar a resposta no dia seguinte.” (...)
(Autêntico Odair José, o cantor/compositor brega: “Eu vou tirar você desse lugar/Eu vou levar você pra ficar comigo/E não me interessa o que os outros vão pensar”).
“11 de outubro. Aguardei o telefonema dela ontem o dia todo, mas ela não ligou. À noite voltei lá e ela, ainda reticente, concordou em me acompanhar numa nova vida. Estou muito feliz.” (...).
Logo depois o banco onde Luiz Alfredo trabalhava encerrou suas operações em Aquidauana, ele foi demitido e recebeu uma boa indenização, pois gozava de estabilidade no emprego (ainda não havia o FGTS).