Artigos e Opinião

CENAS

André Luiz Alvez: "Yo no quiero más"

Publicitário e escritor ([email protected])

Redação

22/09/2016 - 04h00

Escorado na mesa de sinuca, que hoje tenho na varanda de casa, um pensamento me ocorre: sinuca de verdade é aquela de bar, desses que ficam nas esquinas dos bairros.

Eu gostava de jogar, mas gostar não significa saber, é preciso destreza e concentração. A pouca habilidade eu tentava compensar me concentrando ao máximo, mas nem sempre dava certo. 

Lembro da última vez, do exato instante que passei o giz no taco e me preparei para a primeira tacada, quando ouvi uma voz que saía do outro canto do bar – “Yo no quiero más!” –, voz tão amargurada que acabou com a minha concentração. Ergui o corpo e passei mais giz na ponta do taco, dessa vez, fazendo um barulho irritante. 

Enxuguei da testa o suor nervoso e busquei nova concentração, agachei até que meus olhos ficassem no mesmo nível da mesa de sinuca e mirei a bola sete ao mesmo tempo em que ele falou novamente: “Yo no quiero más!”. Incomodado, joguei de qualquer jeito e, em vez da bola sete, matei a quinze. Era a vez de o adversário jogar e só então resolvi encarar o sujeito extremamente magro, dos cabelos sebosos repartidos ao meio e dono de um fino bigode, que, na beira do balcão, bebericava um copo de cachaça. 

Era um paraguaio solitário, das mãos calejadas, que deixava escapar aquele lamento profundo. Olhei mais atentamente, enquanto as bolas se chocavam violentamente e corriam nervosas na mesa do bilhar. Ele parecia vagar por outro mundo, nem se incomodou com meu olhar curioso, “no quiero, no quiero”, mais um gole de cachaça, uma tragada no cigarro e de volta a voz embargada: “Ya sufrido mucho, no quiero más!”. Eu já não me importava tanto com o jogo, queria desvendar segredos, contei-lhe a idade, devia ter menos de 60 anos, embora os olhos caídos e as pontas dos cabelos totalmente brancas sugerissem mais. 

Bebi um gole de cerveja e me preparei para matar a bola cinco, oferecida, perto da caçapa, jogada fácil que se tornou complicada quando ouvi novamente: “Yo no quiero más!”. Mas que diabos será que ele não queria mais? Imaginei hipóteses, a dor de uma doença, saudades, ausências? Encostei meu corpo no balcão, bem próximo dele e do seu mundo, novas frases, outras interrogações, “me há gustado”, breve pausa, outro gole na cachaça que escorreu por seus lábios, antes de completar com os olhos mirados no vazio, “pero no quiero más!”. 

E no fim, quando eu já desistia, ouvi claramente de seus lábios sofridos a frase completa, que me comoveu. “Yo no quiero más saber de mulher bonita”, disse, misturando o castelhano com o português e eu ri um riso profundo: era evidente que, no eixo de tantos lamentos, trafegavam em rodas tortas as desilusões do amor. Ele bebeu o resto da cachaça, testemunha solitária de seus sofrimentos, e eu nem me incomodei com a tacada final do colega na outra ponta da mesa, pancada certeira na bola oito, que ricocheteou entre as duas quinas, rodopiou feito um peão e caiu mansamente na caçapa, levando junto todas as desilusões amorosas daquele sofrido senhor.

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