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ARTIGO

Cezar Benevides: "Lourdes Fragelli e a História"

Professor aposentado da UFMS

Redação

27/09/2016 - 02h00
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Quando eclodiu a “Revolução de 1930” Lourdes Alves Ribeiro, mais conhecida como Lourdes Fragelli, era ainda uma criança. Sua família estava, desde o tempo de seu avô, Pedro Celestino Corrêa da Costa, diretamente, envolvida na vida política da República e pretendia, a partir do Estado de Mato Grosso, influenciar no seu rumo. O movimento teve impacto em quase tudo. Suspendeu a primeira Constituição Republicana, datada de 1891, aposentou compulsoriamente vários ministros do Supremo Tribunal Federal e dissolveu o Congresso Nacional. Fechou igualmente assembleias legislativas, câmaras municipais e afastou dirigentes e até prefeitos. 

Dona Lourdes está partindo agora, aos 94 anos, deixando como legado uma digna família dedicada ao agronegócio. Seus dois filhos, engenheiros Nelson e Nei não enveredaram pela vida política como o pai, que chegou a ser governador do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e senador da República, tendo presidido o Congresso Nacional. Na visão do notável economista Douglass North, que ganhou o Prêmio Nobel, os dois principais elementos do progresso material são a mentalidade da população e a qualidade das instituições. 

Quando dona Lourdes nasceu em Cuiabá, as instituições não valiam quase nada. Está partindo agora, quando a eficácia do Poder Judiciário e a liberdade de imprensa estão garantindo o estado democrático de direito que assegura o direito de propriedade, protege os contratos juridicamente acabados e estimula o espírito de iniciativa do qual depende o funcionamento regular do mundo do agronegócio, ramo escolhido pela família para prosperar e colaborar no aumento da produção nacional.

É interessante que seus antepassados mais remotos apoiaram o governo de Getúlio Vargas até a decretação do Estado Novo quando a sua família também sofreu duras represálias. O jovem tenente do exército Nelson Werneck Sodré, que se notabilizaria depois como historiador marxista, visitou as principais fazendas estrangeiras do antigo Pantanal mato-grossense, e conviveu socialmente com seus dirigentes, mas preferiu poupá-los, reservando seus comentários negativos para os “coronéis”, entre os quais incluiu o pai de dona Lourdes, o coronel Joselito Alves Ribeiro, na época proprietário da secular fazenda Taboco. 

Seja como for, dona Lourdes jamais se recusou a conversar sobre o passado local ocupando um lugar de honra nas histórias de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul. Devo registrar que nossos estudos, em parceria com a professora Nanci Leonzo, foram facilitados pela sua generosa cooperação. Apreciamos sempre a sua boa vontade em nos falar e a autorização de divulgar seus comentários. Dona Lourdes conservou até o final personalidade marcante, unindo simplicidade, cultura geral, rara inteligência, discrição e autoconfiança.

Com o seu desaparecimento sinto que a cultura local está perdendo uma de suas representantes mais autênticas. Tive o privilégio de ser vizinho do casal, dona Lourdes e o senador José Fragelli, na rua Marechal Mallet, em Aquidauana. Frequentei a casa da família, sendo sempre muito bem recebido. Recentemente a visitei no hospital em Campo Grande, conversamos e ela estava absolutamente lúcida. Está partindo como viveu, com dignidade, lucidez e coragem. Com certa emoção, recordo um trecho de uma música cantada por Almir Sater: “Um dia agente chega e no outro vai embora”. Siga em paz dona Lourdes. Guardarei de sua pessoa as mais gratas recordações.

 

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