Aqueles que se dispõem a assumir a Prefeitura de Campo Grande precisam ter planejamento para evitar que permaneça o “jogo de empurra”.
Uma espera de sete horas para um caso de urgência, que exigia atendimento em poucos minutos. Essa foi a grave falha que resultou na morte de Libertino Luiz de Moura, 85 anos. Ele aguardava no Centro de Regional de Saúde do Bairro Aero Rancho, em Campo Grande, a chegada de ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que o levaria para um hospital ou, ao menos, para Unidade de Pronto Atendimento Médico (UPA), onde teria mais estrutura para atendimento. Ele não resistiu a demora e ao descaso que, infelizmente, permanece na área da saúde. A prioridade nesse setor parece ficar apenas nos discursos das campanhas eleitorais. Na prática, ocorre o oposto.
A lentidão já fez outras vítimas no Estado, que esperavam vagas em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em junho, Atílio Arruda, 63 anos, morreu depois de aguardar dois dias, no corredor do Hospital Regional. No mesmo mês, Edison de Figueiredo Júnior também não suportou a espera por exames e pela transferência. Sebastião da Silva, 62 anos, faceleu em fevereiro, quando já aguardava por oito horas vaga dentro de uma ambulância, no pátio do Hospital Universitário. Quando os pacientes conseguem o socorro, muitas vezes, deparam-se com essa recusa. Tem início, então, novo impasse. Sem leitos suficientes, os hospitais utilizam as macas das ambulâncias para acomodar temporariamente os pacientes. Os veículos ficam impedidos de socorrer outras pessoas até essa liberação, que chega a demorar mais de um dia, como mostrou reportagem do Correio do Estado divulgada no dia 11 de setembro.
No caso da longa espera para atender Libertino, a justificativa foi o excesso de demanda, que frequentemente aumenta no fim de semana em função de acidentes. Na segunda-feira, o atendimento cresce, em média, 40% na Santa Casa da Capital, considerada referência nos casos de trauma. Também superlotado, o Hospital Regional acaba funcionando como “postão”, recebendo muitos pacientes de menor gravidade, alguns que não chegaram nem a passar por unidades de saúde. Assim, a estrutura e investimentos que poderiam ser destinados a alta e média complexidade acabam subutilizados. Para completar o colapso, há graves deficiências na rede de saúde do interior do interior, que sobrecarregam ainda mais Campo Grande. Comprova-se, portanto, que todo o sistema de gerenciamento da saúde precisa ser reformulado, pois estão evidentes os problemas de gestão.
Não há como desvincular ainda toda essa sobrecarga de atendimento da necessidade de políticas voltadas à prevenção, algo que contribui para tamanha procura a médicos. Há algumas ações elogiáveis, a exemplo da Caravana da Saúde, mas são temporárias e a necessidade de investimentos na saúde é permanente. Ainda estão distantes das reais medidas para, ao menos, diminuir as dificuldades enfrentadas por quem depende da rede pública de saúde. O caos decorre da desorganização, algo que, lamentavelmente, vem causando perdas irreparáveis.
Aqueles que se dispõem a assumir a Prefeitura de Campo Grande precisam ter planejamento para evitar que permaneça o “jogo de empurra” na saúde, em que responsabilidades não são assumidas. Hoje, parece que os gestores desconhecem o real significado da palavra urgência, ao protelar o que há de mais importante a ser preservado: salvar vidas.