A medida provisória número 746, assinada no último dia 22 de setembro, instituiu uma reforma para a gradual implantação do ensino médio em tempo integral. Entretanto, o conturbado clima político do momento pode dificultar o entendimento de duas questões principais: a urgência de uma reforma compatível com os desafios atuais e os equívocos cometidos pela medida autoritária do governo. O objetivo deste artigo é comentar essas duas questões e o significado educacional das disciplinas escolares.
É preciso reformar o ensino médio porque a objetividade de qualquer disciplina está, estreitamente, ligada ao domínio da subjetividade inerente ao ser humano. Dessa maneira, o estudante tem todo o direito de escolher parte das disciplinas para favorecer suas potencialidades. O desafio de sua concepção está na superação da antiga visão de que a educação matemática ou científica possa subsistir sem uma estreita relação com filosofia, literatura, sociologia, linguagens, artes e educação física.
A medida comete um equívoco ao destacar matemática, português e inglês e lançar dúvidas sobre o tempo e a qualidade do estudo das demais disciplinas: química, física, biologia, artes, educação física, história, geografia, filosofia, sociologia e espanhol. Ao destacar as três e deixar uma nebulosa sobre a importância das demais, o tiro pode sair pela culatra. Esse risco é plausível, pois, na antiga visão, acreditava-se que fosse possível existir educação matemática sem o consórcio de outros saberes que tanto favorecem o florescimento da inteligência humana.
É uma orientação calcada em uma ideia redutora, que aposta na fragmentação dos saberes e não na articulação entre eles. A medida atropela a discussão da Base Nacional Comum Curricular, cujo término está previsto para os meados do próximo ano. De um lado, está a urgência do problema educacional, pois, o modelo alterado estava totalmente falido. Do outro lado, predominam as mais delirantes paixões da subjetividade, como se fosse possível dividir a cabeça do estudante e criar dentro dela caixinhas para aprisionar os saberes disciplinares criados na história.
Seria desejável não apostar nessa aventura de separar a objetividade das artes da subjetividade das ciências. A educação em tempo integral deveria passar por uma rede articulada de teoremas, músicas, poemas, linguagens, tecnologias, ciências, entre outros saberes e com variados graus de formalidade. No passado, acreditava-se na possibilidade de ocorrer uma separação entre esses polos da cognição, como se as artes nada tivessem em comum com as ciências exatas, naturais ou biológicas.
Desse modo, a reforma do ensino médio está ameaçada pelas agitadas ondas do momento, visíveis somente na sua parte externa. No subterrâneo da questão, está o equívoco de tentar resolver antigos problemas com a mesma lógica do passado, como se fosse possível aprender matemática, sem saúde corporal, artística e filosófica.