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Editorial desta terça-feira: "Heranças preocupantes"

Editorial desta terça-feira: "Heranças preocupantes"

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É praticamente impossível tentar convencer os eleitores já desacreditados com base no denuncismo ou em projetos inexequíveis.

Gestores recém-eleitos ou aqueles que seguem na disputa pelo segundo turno precisam ter consciência de que terão pela frente uma série de desafios para cumprir, ao menos, parte do que prometeram durante o período de campanha eleitoral. Receberão uma herança de dificuldades. A crise econômica impôs queda significativa na arrecadação, repasses federais diminuíram, investimentos pararam e o desemprego continua avançando e batendo recorde. Além disso, os diversos escândalos de corrupção envolvendo políticos levam à exigência maior de transparência, algo que ainda deixa muito a desejar na maioria das administrações e até mesmo nos órgãos fiscalizadores. As urnas revelaram insatisfações, seja com partidos que perderam completamente o rumo inicialmente proposto, seja com políticos que fracassaram em suas missões, deixando de atender aos interesses da população.   

Entre os casos de reprovações, aparece de forma mais escancarada o PT, que se desmancha, perdendo mais da metade das prefeituras no País. Em Mato Grosso do Sul, essa derrota foi ainda mais representativa, pois não haverá mais petistas no comando dos municípios. Reflexo dos esquemas de ilegalidades desmascarados pela Lava Jato e, também, da falta de lideranças de peso, pois, neste momento de turbulência, nem todos quiseram colocar seus nomes à disposição do partido. Há momentos em que é mais cômodo “esperar a maré baixar”. Essa mesma onda de inconformismo, porém, ficou evidente com os altos índices de abstenção, votos brancos e nulos. Em nove capitais, essa soma ficou maior que o número de votos do primeiro colocado.

Em Campo Grande, o total de votos brancos, nulos e abstenções foi de 167.922. Mesmo com 15 candidatos na disputa, houve quem preferiu não escolher nenhum desses nomes ou nem chegou a comparecer para votar. Prova do descrédito generalizado na política, corroborado por peculiaridades da capital sul-mato-grossense que tornam esse cenário ainda mais crítico. Além dos escândalos em nível nacional, as turbulências também foram intensas na cidade. O prefeito Alcides Bernal foi cassado e, posteriormente, reconduzido ao cargo por decisão judicial. Na sequência, alguns vereadores foram acusados de participar de esquema para compra e venda de votos para derrubar Bernal, algo que ainda patina na Justiça. A reação veio com o prefeito que não se reelegerá e a renovação da maior parte dos eleitos para a Câmara de Vereadores. O mais votado é justamente um policial federal.   

Contribui ainda para a desconfiança nos políticos o descontrole administrativo. Servidores ficaram sem reajuste salarial, obras estão paralisadas há quatro anos, novas empresas deixaram de se instalar na cidade, cerca de 2,5 mil vagas de empregos foram fechadas e, em apenas quatro anos, o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande passou a acumular rombo de R$ 118 milhões. São apenas parte dos transtornos enfrentados pelos próximos gestores. Como já mencionado, pode haver muito mais problemas. 
Essa herança caótica pode colocar em risco muitas das promessas feitas no período eleitoral. Por isso, é praticamente impossível tentar convencer os eleitores já desacreditados com base no denuncismo ou em projetos evidentemente inexequíveis. Os campo-grandenses terão oportunidade de conhecer melhor as propostas e voltam às urnas no dia 30. O foco precisa estar em consonância com a realidade, pois já bastam os recentes episódios de utopias e desilusões.      

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