Examinando-se os números do primeiro turno da eleição municipal de Campo Grande tem-se um espectro bem amplo de mensagens transmitidas pelo eleitorado da Capital. É significativo terem sido eleitos somente 11 dos 25 vereadores que disputaram a reeleição e destes, somente 3 entre as dez primeiras colocações. Certamente, a controvertida performance dos integrantes da atual legislatura explique esse resultado, apontando para a necessidade de um maior compromisso dos novos vereadores com os princípios republicanos.
É verdade que a “renovação” traz de volta políticos da antiga, como Dr. Loester e Antonio Cruz, que ao lado dos reeleitos Dr. Lívio e Paulo Siufi integram a bancada médica. Fato novo é a presença de dois enfermeiros Fritz e Cida Amaral e do veterinário Francisco. Desse modo, a área da saúde ocupa quase 1/4 dos assentos da Casa. De outra parte, a presença do magistério, outrora importante, ficou reduzida ao Prof. João Rocha.
Quanto à bancada evangélica, ela se robusteceu demonstrando a eficiência e eficácia do poder religioso na política. Embora alguns postulantes não tenham sido eleitos, no conjunto o resultado foi expressivo. Já as mulheres experimentaram um recuo, sendo que nenhuma das três vereadoras se reelegeu e somente duas novatas obtiveram mandatos.
Mas, novidade mesmo foi um policial federal como o campeão de votos, seguido do filho de um juiz federal e, também bem posicionado, um delegado. Será que pelo fato de a atividade política ter se convertido em “caso de polícia” os eleitores decidiram colocar os xerifes diretamente na Câmara? O fenômeno merece reflexão.
Sobre a eleição para prefeito, tem-se o crescimento da abstenção em relação ao primeiro turno de 2012 na ordem de 16%, fato que em si não chega a ser alarmante, apenas confirma uma tendência. Entretanto, os votos nulos e em branco experimentaram um crescimento vertiginoso, 7,49% e 3,66% respectivamente. Tomando-se a média dos resultados de 2000, 2004, 2008 e dos dois turnos de 2012, constata-se o crescimento de 91,6% dos votos em branco e de 100,8% dos votos nulos.
Expressos em números absolutos, a abstenção representa 114.286 eleitores ausentes; votos em branco 17.619 e votos nulos 36.017, ou seja, a manifestação de desinteresse ou descontentamento é de 167.922 eleitores. Se considerarmos que o primeiro colocado Marquinhos Trad recebeu 147.694 votos, a segunda Rose Modesto 113.738 e Alcides Bernal 111.128 constata-se que todos estão abaixo daquele contingente de insatisfeitos, desencantados, inconformados diante da crise política em âmbito nacional e local. Trata-se de fato da maior gravidade, na medida em que compromete a representatividade dos eleitos e, por extensão, solapa a própria Democracia.
É preciso que a classe política assuma essa realidade de forma responsável, para além dos interesses envolvidos na próxima eleição. É preciso que a sociedade civil se organize e paute a Reforma Política, com a convocação de uma Constituinte exclusiva, com cláusula de barreira para quem a integrar. Não podemos cruzar os braços e esperar que o Congresso Nacional assuma a tarefa, pois, se o fizer, será apenas um arremedo de reforma de modo a se manterem os privilégios dos que lá estão. O recado está dado, as urnas não mentem jamais.