O período eleitoral é momento mágico para todos os candidatos que pretendem exercer algum cargo eletivo. Nas suas andanças a procura de eleitores, para lograr êxito ao seu projeto, a prioridade é esquecer-se de outros afazeres e se dedicar de corpo e alma ao seu intento. Trava-se, por vezes, batalha rasteira ao utilizar-se de impropérios contra o caráter do seu oponente investindo de viva voz ou utilizando-se dos meios de comunicação envolvendo até familiares do adversário. Não mede as consequências de sua atitude e, não raras vezes, a insensatez toma conta das campanhas porque no afã de conquistar o voto o resultado é a violência chegando ao ápice de cometimento de crimes de natureza grave.
Mas ele, o candidato, segue à procura de votos. Ao ver um amigo diz: - Sou candidato e conto com seu voto. Para seu afago, o amigo suspende o polegar dizendo-se positivo convencionado que está tudo certo. Eis que ele, o candidato, se lembra do compadre que não vê há anos e se recorda de não ter atendido a um pedido dele. Arranjando forças necessárias chega fazendo algazarras e gritando:- Oi, quem é vivo sempre aparece. Após os cumprimentos de praxe não se constrange em pedir o voto do compadre e família. Certo de ter conseguido seu propósito, confessa não haver respondido ao pedido do pai do seu afilhado porque não houve oportunidade, mas se compromete, depois de eleito, fazer visita amiúde à família e atender as solicitações desejadas. Na certeza de ter angariado mais votos sai todo orgulhoso do seu desempenho jeitoso.
No contexto eleitoral também aparece o candidato que exerce profissão liberal. Ao se defrontar com um conhecido vai logo pedindo e profetizando:- Quero seu voto, mas estou praticamente eleito. Ao ser indagado o porquê daquela certeza ele faz uma conta rápida. – Ora, eu tenho mais de oitocentos pacientes ou constituintes (conforme a área de atuação) e multiplicando por quatro em cada família terei os votos necessários para ser eleito. No dia da votação ele, o candidato, ainda saia à procura de mais algum voto confiando na sua eleição. Ao chegar à urna para o sufrágio é acometido por claro surto do caráter ilibado e pensa: - Não vou votar em mim mesmo, é ridículo, pois estou praticamente eleito; e, sem hesitar, “tasca” seu voto em outro concorrente amigo, ou vota em branco ou nulo.
Na apuração ele é tomado, inicialmente, por satisfação incontida e de inexplicável expectativa animadora. Enquanto os votos são contados fica ligado e tenso. No final da contagem vem à amarga decepção: Nem sua mulher lhe dera o voto. Enquanto isso, o candidato detentor de profissão liberal chega à conclusão de que a maioria de seus clientes ou constituintes não foram leais. Uma grande parcela se mostrou infiel traindo sua confiança, e o desespero toma conta. Nervoso e com raiva vai pra a casa e nem olha para a mulher. Fica emburrado, taciturno, dentro do quarto sem falar com ninguém.
Passados uns dias ele faz profunda reflexão, se acalma e constata que entendia estar numa prancha vitoriosa quando, na realidade, surfava na onda mágica da esperança ilusória. Apesar do revés dolorido ele, o candidato derrotado, se conforma ao analisar e comprovar que todos os dias, dia após dia, o povo humilde deste país corre atrás da esperança da ilusão...