Artigos e Opinião

CRÔNICA

Theresa Hilcar: "Somos todos chatos?"

Theresa Hilcar: "Somos todos chatos?"

Redação

18/10/2016 - 04h00

O golpe foi certeiro, sem meias palavras, ele perguntou: “Por que as pessoas mais velhas, ao invés de ficarem mais ‘de boa’ com a vida, se tornam mais intolerantes?”. O irmão, aproveitando a deixa, concordou de pronto: “É mesmo, está cada vez mais difícil conversar com você e meu pai”. E um dos motivos, segundo eles, é a mania que nós, os mais velhos, temos de achar que a gente sabe tudo.

Com isto damos pouco espaço para discussões saudáveis e troca de ideias. Fiquei em silêncio por alguns segundos, mas concordei. Envelhecer pode nos trazer mais sabedoria, mas o acúmulo de bagagem pode conter um pouco de arrogância.

Arrogância que pode ser um simples fruto de carência e um profundo desejo de auto afirmar-se. Sentimentos que experimentamos lá longe, no tempo de adolescentes e que voltam para nos assombrar na maturidade (sic). Tudo bem, pode ser que nem todo mundo passe por isto, mas garanto que em algum momento qualquer um de nós vai sentir que não tem mais nada para dar e, portanto, é um ser descartável.

Quem já não ouviu o filho dizer que tal conselho ou opinião é pura besteira? Que não sabemos de nada, que o mundo mudou, blá, blá, blá. Nós também fizemos isto, lembram? Pois é, parece que Elis Regina tinha razão quando cantava que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Mas, como vivemos num mundo politicamente correto e rápido, precisamos saber, no mínimo, algumas regras de comportamento. Ou ter um terapeuta de plantão, cada vez que nos sentirmos inúteis.  Outro dia uma amiga me enviou uma espécie de prece da experiência. Pois é, já existe uma oração contra as chamadas “chatices de velho”. 

Não tenho a menor ideia de quem escreveu este libelo de sabedoria, mas o autor, ou autora, pede com certeza a Deus algumas coisas interessantes: para parar com a tolice de achar que deve dizer algo, em toda e qualquer ocasião, livrá-lo do desejo de querer pôr em ordem a vida dos outros; da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e voar diretamente ao ponto que interessa. 

Também pede que lhe ensine a fazer silêncio sobre suas dores e doenças, pois a vontade descrevê-las vai aumentando com a idade. Ou seja, só falta pedir que, depois de certa idade (não vou nem dizer quanto), a gente se torne invisível.

Todas as vezes que passo dos limites com meus filhos, seja dando palpites na vida profissional ou pessoal, escrevo uma carta pedindo desculpas. São tantas que dariam um livro.

Descobri que ao vivo nunca sei o que dizer. Que minha ansiedade muitas vezes me trai. E que me sinto realmente muito mais velha do que sou, na presença deles. Os filhos têm mesmo esta mania de nos colocar no lugar que eles julgam mais apropriado.

De vez em quando, confesso, tenho certa inveja de famílias grandes, com muitos filhos, sobrinhos, netos e agregados. As opções são maiores e a carga dos filhos diminui. Filhos únicos ou de mãe única, como dizia meu amigo Henrique, são complicados. A eles cabe toda a delícia e o fardo de suportar nossas qualidades, idiossincrasias, ausências e diferenças. Que, infelizmente e naturalmente, podem se tornar maiores com o passar do tempo. E para quem ainda é jovem, dá um medo danado olhar para os espelhos. Não queremos ser como nossos pais. Mas envelhecer vamos todos. E que assim seja! Mas bem que podia ser um bocadinho mais fácil.

 

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