Como atos, tidos como ingênuos, do cotidiano de grande parte dos brasileiros, podem ser o pilar de sustentação para um sistema de governança baseado em escândalos de corrupção?
Estampada nas capas de jornais e revistas ou nas manchetes da TV, todo dia surge uma nova notícia de corrupção, seja ela na esfera federal, estadual ou municipal, ou nos poderes executivo, legislativo ou judiciário. A contaminação é tamanha que está presente em todas as partes do nosso sistema governamental.
Porém, já paramos para analisar o por quê? Será que esta corrupção que tanto nos escandaliza e nos envergonha só acontece nas esferas mais altas do poder? Será que somente acontece onde há o dinheiro público? Infelizmente a resposta pra todas as perguntas é não. A dura realidade e pouco difundida e admitida é que nós, brasileiros, somos corruptos em nossa essência, nas coisas mais simples, mais banais do dia-a-dia, tratando nossos deveres e responsabilidades na base do chamado “Jeitinho Brasileiro”.
A maioria dos brasileiros querem ganhar vantagem em tudo e sobre todos. Seja para se livrar daquela multa de trânsito, com o “cafezinho pro guarda”, seja na hora de estacionar onde não deveria, “mas é rapidinho, eu já volto”, aquela malandragem do mau aluno que não estudou, mas na hora da prova “cola” do coleguinha, “quem não cola, não sai da escola”, diz o velho ditado. São tantos outros maus exemplos, que um mero artigo de opinião não seria suficiente para enumerar. Contudo, isto é sim corrupção, em pequena proporção, mas é. Se nós não sabemos respeitar as regras e normas, se não somos honestos nas coisas mais simples, como queremos e esperamos que nossos representantes sejam? Se eles veem desta mesma cultura do jeitinho, do “se dar bem” em tudo.
Em 2012, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou uma pesquisa em 143 municípios e entrevistou mais de 2000 brasileiros, questionando sobre a percepção dos entrevistados se a forma de agir do brasileiro reflete no jeito com que tratamos as pessoas. Nesta pesquisa verificou-se que 82% acham que a maioria age querendo tirar vantagem, enquanto só 16% dos entrevistados supõe que as pessoas atuem de maneira correta.
Segundo Rachel Meneguello, cientista política da Universidade de Campinas (Unicamp), a ideia de que o brasileiro sempre burla normas e determinações para obter o que almeja – e essa é uma das definições do jeitinho – é recorrente.
Em nossa Pátria Mãe Gentil, são enaltecidas duas figuras distintas que não se coadunam: o honesto e o malandro. O antropólogo Renato da Silva Queiroz faz uma especial observação, que: “a cultura brasileira é permeada por uma ambiguidade ética em que termos como “honesto”, “corrupto”, “esperto”, “otário”, “malandro” e “mané” se misturam num confuso caldeirão moral”.
O parágrafo único do 1º artigo da Constituição Federal Brasileira, vislumbramos que todo o poder emana do povo e este poder é exercido por meio de representantes eleitos, ou seja, somos nós, o povo do “jeitinho”, que exerceremos o poder e que iremos administrar as verbas públicas, por meio de nossos representantes.
Para que possamos viver naquele sonhado Brasil de transparência e reciprocidade com nossos governantes, devemos primeiramente sermos honestos conosco, em nossa forma de agir e de pensar, quebrando esta “maldição” do jeitinho, do querer se dar bem a todo custo e acima de qualquer um. A partir daí, teremos pessoas mais íntegras e por consequência políticos melhores.