Artigos e Opinião

CRÔNICA

Maria Adélia Menegazzo: "Mundo sem rima"

Maria Adélia Menegazzo: "Mundo sem rima"

Redação

01/11/2016 - 14h26

Tudo anda diferente, eu acho. Definitivamente, anda. O ver e o ver-se ainda são as nossas diferenças. Tratando do embelezamento, o filósofo A. Danto observa: “Olhamo-nos no espelho não apenas para ver a nossa aparência, mas também para ver como esperamos que os outros nos vejam, e, a não ser que sejamos incrivelmente autoconfiantes, tentamos modificar nossa aparência a fim de que os outros possam nos ver como desejamos. A felicidade e a infelicidade neste mundo estão relacionadas à aparência”. 

Beleza e embelezamento não são coisas que se aprendam, mas tenho pra mim que lhes sou sempre uma aprendiz. Me faz bem olhar o que me encanta e gosto, ainda, de chorar quando ele, o encantamento, se vai. Mas não me dou por vencida, porque vencer só não tem graça, logo passa. É como vingar-se: o prato chega sempre frio e eu gosto da quentura das coisas, até mesmo dos dias de verão. Melhor que nascer é viver  a vida como uma soma de mistérios, sejam eles como os do rosário, dolorosos ou gozosos, ou das histórias de detetive. Não importa, mistério é tão fundamental quanto a beleza das mulheres de Vinícius.

Não sei ao certo porque estou escrevendo essas coisas que me passam pela cabeça neste momento, mas pode ser que seja o efeito “momento de cruz-credo” que estamos todos vivendo, sem muita expectativa sobre o dia de amanhã, sem muita vontade de ampliar espaços e deixando para vestir nossos sonhos um pouco mais tarde. 

A tristeza a gente respeita e deita fora, como diz Mãe, precisamos usá-la mas não é bom ficar guardada. Então, está bem. Mas o que a gente faz com o vasto mundo se ele não rima mais com o raimundo, com minúscula mesmo. Concordar com o Pessoa e dizer que o sol doira sem literatura e a brisa, como não tem pressa, passa?

O sol pode dourar sem literatura, mas é sempre nela que eu encontro o que melhor fazer de mim. É aí que o encantamento volta. Leio várias coisas ao mesmo tempo. “Em Hanói”, de Adriana Lisboa, suavizei o trabalho ouvindo ao mesmo tempo todas as referências de jazz que a história pede para compreender o protagonista: Miles Davis, Ahmad Jamal, Nina Simone, Ella Fitzgerald e muitos outros. You know how I feel! Já, “Simpatia pelo demônio”, de Bernardo Carvalho, ainda preciso pensar um pouco mais, fiquei meio decepcionada. Por outro lado, nos Poemas escolhidos, de Mia Couto, me abandonei: “Tenho demasiado sono para alimentar crenças. Das casas vou preferindo os cantos interiores, obsessivas sombras em que vou julgando. Se me acerco de janelas é apenas para ver ao longe, as ténues linhas do azul inatingível. Vou ficando pela distração de desejos mansos, sem guardar réstia de glória nem consolo. Assim, dou feriado  à minha existência”.

E para voltar ao nó, O abuso da beleza, de Danto, me pôs, assim, a refletir sobre o ver e o ver-se, que, aliás, já me tinha abraçado em sonetos de Camões.

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