Os que me distinguem ao ler minhas opiniões transcritas na segunda página de nosso CORREIO DO ESTADO devem ter notado que sou seu leitor diário desde sua fundação em 1954. Também leitor contínuo do ESTADÃO há mais de setenta anos, um adolescente em 1939. Devo o que colhi na minha existência muito da leitura nesses consagrados órgãos de nossa imprensa.
Aqui, um leve toque. Dias já transcorridos, despertou-me a curiosidade de ler um encarte da edição de 20.10.16 do ESTADÃO, sobre o embaixador Rubens Ricupero, que acabara de vencer o premio de Professor Emérito 2016 e o troféu Guerreiro da Educação Rui Mesquita concedidos pelo CIEE (Centro de Integração Emprego Escola) e o ESTADÃO. Diga-se que o premio é concedido anualmente à personalidades nacionais que têm marcado destaque pela obstinação à arte de ensinar.
Ao ler a interessante trajetória de Rubens Ricupero na carreira diplomática e agora no magistério superior na tradicional FAAP, em São Paulo, veio-me à memória um episódio em que teve importante participação o embaixador Ricúpero. Passo a relembrá-lo. Era eu deputado federal e a convite do Comitê Central do Partido Comunista da U.R.S.S., com outros parlamentares de diferentes opiniões ideológicas, visitamos as repúblicas soviéticas da Rússia e da Ucrânia no mês gelado de dezembro de 1982. Parênteses: enfrentamos temperaturas de 31 graus negativos, UFF!...
Em reunião plenária no Kremlin, ousei sugerir ao governo Soviético que aplicasse recursos para recuperação do leito do rio Paraguai, desde a cidade de Cáceres, em Mato Grosso, permitindo sua pela navegabilidade até a integração de suas águas com as do Mar Del Plata quase dois mil quilômetros à jusante. Em troca o Brasil poderia fornecer-lhe minérios de ferro e manganês de Urucum, grãos como soja, milho, carne bovina e suína, além de outros produtos de nossa cadeia produtiva, oriundos dos dois estados mato-grossenses. Confesso – entendi à época – que minha proposta só serviria para preencher a pauta dos trabalhos daquela reunião.
Para minha surpresa, em 1985 o embaixador da União Soviética no Brasil, cujo nome não me recordo agora, através do Adido Comercial, convida-me para uma audiência na Embaixada porquê desejava conversar sobre aquela minha sugestão da navegabilidade do Rio Paraguai. Acompanharam-me o saudoso senador José Fragelli, então presidente do Senado Federal, e o empresário Elísio Curvo. Ouvimos do embaixador que seu governo gostaria de analisar o assunto com nosso governo e que de início estaria disposto aplicar 150 milhões de dólares no projeto (um dinheirão para a época). Levei imediatamente a proposta ao conhecimento do presidente José Sarney que por ela se entusiasmou e tomou as providências que se impunham no momento. Aí entra a figura do embaixador Rubens Ricupero, seu assessor para relações exteriores, com a missão de gestionar perante o governo do Paraguai (por onde correm também as águas do rio de mesmo nome) sua imprescindível adesão. Meses se passaram, nada obstante as diligências do embaixador Ricúpero e eis que chega a resposta do presidente Alfredo Strossner: “Não negocio com comunistas”!...
Lá se foi na correnteza do rio Paraguai, pela decisão tacanha do então ditador-presidente uma ideia que certamente traria, se concretizada, importantes e inegáveis benefícios ao desenvolvimento econômico, social, político, para os países integrantes da Bacia do Prata.