Sempre que um novo empreendimento é lançado, isto ocorre sem qualquer questionamento. Quem é impactado não participa do processo.
Ações que impactam diretamente na rotina de milhares de pessoas não devem ser vistas de forma trivial pelas autoridades. Uma decisão tomada rapidamente, sem a análise e debate necessários, pode ser altamente danosa à comunidade. Autoridades municipais da área de desenvolvimento e planejamento urbano, conselhos de engenharia de arquitetura e urbanismo, e também vereadores devem agir com prudência sempre que um empreendimento que gera efeito no cotidiano dos cidadãos for lançado.
É o caso do edifício que a HVM Construções promete lançar em breve, na travessa Ana Vani, no Jardim dos Estados, em Campo Grande. O prédio terá 110 metros de altura e 420 apartamentos e provocará grande transformação nesta região da Capital. A transformação, que pode ser positiva para alguns, tem grande chance de ser danosa para quem vive no entorno do prédio. Quando todos os apartamentos estiverem habitados, serão certamente mais de 1 mil moradores no local, e se cada garagem for ocupada por um automóvel, serão aproximadamente 500 veículos a mais transitando na região, já muito movimentada. Nos horários de pico, o trânsito nas imediações seria seriamente afetado.
A incorporadora responsável pelo novo edifício alega que o projeto do prédio de 35 andares cumpre todas as obrigações impostas pela legislação, e conta, inclusive, com autorização da Força Aérea Brasileira, por causa da altura do edifício. O que deve ser lembrado, porém, é que ultimamente não tem sido difícil aprovar grandes projetos nos órgãos de controle da cidade. É provável que todos os prédios lançados recentemente, alguns já prontos, atendam a todos os requisitos técnicos no que diz respeito a questões de engenharia. O que falta, porém, é o debate na área de urbanismo.
Sempre que um novo empreendimento é lançado, isto ocorre sem qualquer questionamento. Quase não se ouve a sociedade civil organizada. O poder público dificilmente convoca vizinhos de um novo prédio para a opinião deles sobre o lançamento. Tudo isso ocorre em uma cidade que tem a mesma escada de longo alcance (Magirus) desde o fim da década de 1960, e que só agora, mais de 50 anos depois, receberá um novo equipamento, que, ainda assim, terá capacidade para efetuar resgates em edificações de até 64 metros de altura (o novo prédio terá 110 metros).
É preciso que as autoridades se atentem à segurança das edificações verticais. No caso deste novo empreendimento, por exemplo, está prevista uma grande piscina na cobertura, mas não existe no projeto a previsão de um heliponto. Leis federais e municipais da década de 1970, que estabeleciam a obrigatoriedade de helipontos em prédios com mais de 15 andares, foram substituídas por legislação mais branda. As leis mais rígidas foram aprovadas depois da tragédia do Edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974, em São Paulo (SP), quando 180 pessoas morreram.
Não custa lembrar a tragédia no edifício Leonardo da Vinci, em Campo Grande, em outubro de 2011, em que morreram um publicitário e uma defensora pública. Ambos inalaram fumaça na escada de emergência do prédio de 20 andares. Na ocasião, as portas “corta-fogo” não estavam devidamente fechadas, e de nada serviram.