Socorro! Preciso urgentemente falar com o mágico Tabajara! Há muitos anos, ele me ajudou a entender algumas ignorâncias, algumas atrocidades, algumas santidades. Continuo achando que só com um pouco de mágica e de magia podemos dar um jeito na coisa que é este nosso mundo.
Preciso que meu mágico preferido venha destravar a minha escrita e, quem sabe, eu dê um jeito de falar da miséria sem pieguice, falar da lama sem escorregar no barro, falar da chacota sem repetição de atores, falar da humanidade sem perder-lhe a alma.Também não quero ser útil: não quero lamentar, não quero alertar, não quero educar. Só quero rever algumas coisas que vi, li ou ouvi, e que, embora as preferisse esquecer, vou lembrar.
Já se disse que na urgência ou na humilhação não há lugar para o supérfluo. Só que eu preciso, para sobreviver, de um pouco de “paixão inútil”, então, vamos ver se eu dou conta.
Um documentário sobre exportação de lixo me deixou paralisada. A Europa “exporta” para a África toneladas de lixo de toda espécie.
A imagem que mais me impressionou é resultado dos constantes aperfeiçoamentos da indústria de componentes eletrônicos de informática. Imagina um “lixão” só de restos de computadores e acessórios. Tem jeito,Tabajara? Tão terrível quanto o consumo desenfreado é a ausência de compromisso da indústria na reciclagem dos produtos ultrapassados.
Gertrud dizia que uma rosa é uma rosa. Manoel, que uma lata é uma lata. O mundo inteiro diz: lixo é um lixo é um lixo é um lixo. A diferença é que Gertrud Stein e Manoel de Barros faziam poesia. O mundo, taí. Onde colocar o lixo?
A Europa compra terrenos na África para depositar seu lixo. Alguma coisa semelhante com aqueles contêineres de tecidos de origem duvidosa que apareceram no Brasil anos atrás. Precisamos da cartola do Tabajara pra adivinhar o nome dessas coisas todas?
Um segundo documentário reportava às mulheres e meninas que são vendidas como escravas sexuais em uma região entre o Iraque e a Síria. Foi por causa de uma notícia sobre este assunto que chamei, pela primeira vez, o mágico Tabajara para me ajudar a entender o que acontecia e para ver se poderia desfazer tanta sordidez.
E não há de pensar que é só por lá. Com guerra ou sem guerra, desde que o mundo é mundo, esta é uma prática, muitas vezes revestida pelo manto da autoridade familiar, outras pelo manto das práticas políticas e das culturas, mas sempre pelo manto da covardia e da impunidade. Não faz muito, tivemos aqui no Brasil casos de estupros coletivos e constantemente redes de pedofilia são desmontadas. Essas, nem Tabajara pode dar jeito.
Com frequência, em nossos dias, o fim parece próximo: nesses momentos, uma necessidade de esquecer, de não reagir, supera o desejo de viver… Refletir sobre o inevitável (?) ou simplesmente não tentar dormir mais: o sono parece desejável. Testemunhamos submissão daqueles que foram sobrepujados pelo peso enorme de uma situação. Mas os que gritaram estavam acordados?
O que está por vir é tão estranho, tão vasto, tão fora da medida das expectativas… No momento em que toma forma o destino que os conduz, a maioria dos homens se entrega à ausência.
Este último parágrafo foi escrito por Georges Bataille, em 1950. Nada mudou na nossa desumanidade. Seria preciso, no mínimo, uma reunião de todos os mágicos do mundo.