Chegou-lhe aos ouvidos o apito do trem. Já nem prestava mais atenção àquele som soturno, comparado ao berrante que saía arranhado dos discos nas tardes de domingo. Ouvi-los se tornara um hábito do pai ferroviário e de toda a família . Inicialmente, para encobrir a gritaria dos vizinhos em partidas de futebol na vila em que moravam.
Com o tempo, foi-se tornando um hábito dominical o chiar da agulha sobre aquelas luas negras , porões de vozes guardadas num velho armário que tinha sido da avó. Novamente, o apito enfumaçado. Chamou a irmã para ir à estação dar boas vindas com seu olhar castanho e suas asas presas a um corpo franzino. O pai, por certo, não daria falta das filhas. E se desse, podiam contar com a cumplicidade da mãe para lhe esfarrapar uma desculpa qualquer.
Chegou antes que o trem abrisse suas portas para despejar as vidas que despencavam, penduradas em sacolas, sacos e malas. A menina iniciava, então, seu secreto exercício de fim de semana. Escolhia um dos que desciam agarrados aos seus pertences, equilibrando-se para não cair no vão que se formava entre o vagão e a plataforma. Firmava-lhe o olhar. Sua imaginação girava feito um catavento aloprado.
A selecionada dessa vez trazia em uma das mãos um pacote embrulhado às pressas e amarrado com um grosso cordão. – São cartas, pensou. Só podiam ser. Nelas estavam as provas de que Romilda havia, sim, escrito para Josenildo, mas que ele nunca recebera. Tinham voltado todas. A menina espichou o olhar para a mão direita da mulher. Uma pequena mala, que pareceu quase sem uso, anunciava roupas floridas. Havia também um par de chinelos, uma camisola de algodão, com entremeio de renda na barra, um vidro de colônia barata, sabonete, pasta de dente, um livro e um terço. Não, isso não era tudo. O melhor estava por se revelar aos olhos da menina: um vestido branco, imaculado, de noiva, perfeitamente adormecido no fundo da mala. –Que lindo, exclamou . Dessa vez, a irmã ouviu e perguntou: - O quê? -Nada, respondeu. Aquelas visões eram somente dela, guardava-as com extremado zelo e não haveria de ser ali, entre trilhos , fumaça e burburinhos, que iria contá-las.
Quanto tempo havia se passado? Não soube precisar. Aos poucos, a estação foi se esvaziando , pessoas pegavam seu rumo. Apenas a mulher permaneceu em pé, agora com sua bagagem apoiada sobre o chão , porque a solidão lhe pesava demais. A irmã chamou: -Vamos? A menina se recusou. Seu olhar acompanhou Romilda até ela sentar-se num velho banco com o pacote de cartas abraçado junto aos seios mirrados.
De longe, viu sua cara molhada de tristeza . O coração da menina apertou. – Vamos? , repetiu a irmã. -Nossa mãe já deve ter inventado uma desculpa qualquer pra nossa ausência . A contragosto, voltou de mãos dadas com a irmã até chegar à casa onde o pai ouvia ainda uns últimos discos. O olhar da mãe foi de alívio. Já era noitinha e logo seria servida a broa de fubá com erva doce, outro hábito que também se cultivava naquela casa sempre depois do terço no rádio. Mais tarde, a menina, em sua cama, continuou seu sofrimento pela mulher na estação até adormecer junto às lágrimas sonolentas.
Do outro lado da cidade, Helena terminava de desfazer a mala. Ficou admirando as três blusas novas, de cores vibrantes, o sapato prateado de salto alto, o vestido elegante que usaria no casamento da prima. Quis mostrar para o marido as compras feitas, mas Sérgio ainda estava na sala, esparramado sobre o sofá e se deliciando com a rapadura de leite com mamão que ela lhe trouxera. Helena terminou de colocar as coisas no lugar, apagou a luz e foi ao seu encontro.
Antes de sentar-se ao seu lado, amassou o papel de embrulho e o cordão grosso que o marido deixara sobre a mesa e jogou-os na lata de lixo. Sérgio puxou a mulher para perto de si e tascou-lhe um beijo açucarado. Novamente, pediu perdão por ter se atrasado em ir buscá-la na estação. Culpa de um defeito no carro. Helena aninhou-se nos braços daquele homem bom. Era o prenúncio de mais uma longa noite de amor.