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Sylvia Cesco: "A Menina e o Trem"

Sylvia é professora

Redação

18/12/2016 - 00h00
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Chegou-lhe aos ouvidos o apito do trem.  Já nem prestava mais atenção àquele som soturno, comparado ao  berrante que saía arranhado dos discos nas  tardes de domingo. Ouvi-los se tornara um hábito do pai ferroviário e de toda a família . Inicialmente, para encobrir  a gritaria  dos vizinhos em partidas de futebol  na vila  em que moravam.  

Com o tempo, foi-se tornando um hábito dominical o chiar da agulha sobre aquelas luas negras , porões de  vozes guardadas  num velho armário que tinha sido da avó.  Novamente, o apito enfumaçado. Chamou  a irmã  para ir à estação dar boas vindas  com seu olhar castanho e suas asas presas a um corpo  franzino.  O pai, por certo, não daria falta  das filhas. E se desse, podiam contar com a cumplicidade da  mãe para lhe esfarrapar uma desculpa qualquer. 

Chegou  antes  que o  trem  abrisse  suas portas para despejar as vidas que despencavam,  penduradas  em sacolas, sacos e  malas.  A menina  iniciava, então,  seu secreto exercício de  fim de semana. Escolhia um dos que desciam  agarrados aos seus pertences, equilibrando-se para não cair no vão que se formava entre o vagão e a plataforma. Firmava-lhe o olhar.  Sua imaginação  girava feito um catavento aloprado. 

A  selecionada dessa  vez trazia em uma das mãos  um  pacote embrulhado às pressas e amarrado com um grosso cordão. – São cartas,  pensou. Só podiam ser. Nelas estavam as provas de que  Romilda havia, sim,   escrito para Josenildo, mas que ele nunca recebera. Tinham voltado todas. A menina espichou o olhar para  a mão direita da mulher. Uma pequena mala, que pareceu quase sem uso,  anunciava  roupas   floridas. Havia também um par de chinelos, uma camisola de algodão, com entremeio de renda na barra,  um vidro de colônia barata, sabonete, pasta de dente, um livro e um terço. Não, isso não era tudo. O melhor estava por se revelar aos olhos da menina: um vestido branco, imaculado, de noiva, perfeitamente adormecido no fundo da mala.  –Que lindo, exclamou . Dessa vez, a irmã ouviu e perguntou: - O quê? -Nada, respondeu. Aquelas visões eram somente dela, guardava-as com extremado zelo e não haveria de ser ali, entre trilhos , fumaça e burburinhos, que iria contá-las. 

Quanto tempo havia se passado? Não soube precisar. Aos poucos, a estação foi se esvaziando , pessoas pegavam seu rumo. Apenas a mulher  permaneceu em pé, agora com sua bagagem apoiada sobre o chão , porque a solidão  lhe pesava demais.  A irmã chamou: -Vamos?  A menina se recusou. Seu olhar acompanhou Romilda até ela sentar-se num velho banco com o pacote de cartas abraçado junto aos seios mirrados. 

De longe, viu sua  cara molhada de tristeza . O coração da menina apertou. – Vamos? , repetiu a irmã. -Nossa mãe já deve ter inventado uma desculpa qualquer pra nossa ausência . A contragosto, voltou de mãos dadas com a irmã  até chegar à casa onde o pai ouvia ainda uns últimos discos. O olhar da mãe foi de alívio. Já era  noitinha e logo seria servida a broa de fubá com erva doce,   outro hábito que  também se cultivava naquela casa sempre depois do terço no rádio.  Mais  tarde, a menina, em sua cama, continuou  seu sofrimento pela mulher na estação  até adormecer junto às  lágrimas sonolentas. 

Do outro lado da  cidade, Helena terminava de desfazer a mala.  Ficou admirando as três  blusas novas, de cores vibrantes, o sapato prateado de salto alto, o vestido elegante  que usaria no casamento da prima. Quis mostrar  para o marido as compras feitas, mas Sérgio ainda estava  na sala, esparramado sobre o sofá e  se deliciando com a rapadura  de  leite com mamão que ela  lhe trouxera. Helena terminou de  colocar as coisas no lugar, apagou a luz  e foi ao seu encontro. 

Antes de sentar-se ao seu lado, amassou o papel de embrulho e  o cordão grosso que o marido deixara sobre a mesa e jogou-os na lata de lixo. Sérgio puxou a mulher  para perto de si e tascou-lhe um beijo açucarado. Novamente, pediu perdão por ter se atrasado em ir buscá-la na estação. Culpa de um defeito no carro.  Helena aninhou-se nos braços daquele  homem bom.  Era o prenúncio de  mais uma longa noite de amor.

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