Lembra quando a gente era criança e queria muito ser adulto? Lembra quando a gente tinha seis, sete anos (hoje acho que a idade seria outra) e queria usar salto alto e batom?
Ou quando tinha quinze e queria sair de casa para ser independente, namorar, viajar, sem ter que dar satisfações aos pais? E quando a gente vivia de mesada, não tinha preocupação alguma em pagar contas e o dinheirinho que a gente recebia, sem trabalhar, era exclusivo para nossos “alfinetes”, heim?
Lembra a época em que você não precisava se preocupar com a conta de água e luz – tomava banhos demorados e passava a noite com a luz acesa? Sabe aquela sensação de não ser responsável por nada, nada que não fosse apresentar o boletim escolar com notas azuis?
Alguém, em sã consciência, poderia imaginar que, ao contrário do nosso sonho, tornar-se adulto é perder a liberdade para sempre? Esta foi a conclusão que a personagem da série americana, “Grey’s Anatomy”, chegou logo que terminou a faculdade e foi direto para a labuta. Foi quando percebeu que, a partir daquele momento, a palavra que nunca sairá do vocabulário é a tal Responsabilidade.
Ora, ora. Nem nos nossos piores pesadelos poderíamos imaginar o fardo de uma palavra como esta, tatuada em cada centímetro do nosso corpo. Ou vai me dizer que quando você jogava amarelinha com seus colegas, estava imaginando o quanto iria pagar de IPVA, IPTU, INSS, Condomínio, aluguel, telefone, tv a cabo, internet e mais uma dezena de itens que devem ser pagos regularmente?
Naquele dia, brincando no balanço, feito de pneu, debaixo de uma frondosa árvore no quintal, você não pensou que no futuro não existiria mais balanço, nem árvore, nem amigo pra te empurrar lá pro alto e você gritando; mais alto, mais alto!
Aposto que você, nem eu, nem ninguém, sabia o que significava crescer. Que nem seus pais, avós, tios, ninguém tinha manual com instruções precisas e seguro vitalício contra os perigos do mundo, a solidão e a total impotência que vez por outra nos assalta.
E o que podemos dizer da adolescência? Fase em que temos absoluta certeza de tudo, inclusive da imortalidade. Qual adolescente fica sem dormir porque a taxa de desemprego está aumentando, a inflação comendo o salário dos pais, e a corrupção está corroendo a escola, a saúde e tudo mais que estiver por perto? Adolescente pode até passar noites em claro, mas por motivos bem mais prosaicos: o fora da namorada, a vontade de ter um celular mais moderno, o trabalho da escola (raro, mas há quem se preocupe com isto, felizmente), ou porque as curtidas do seu Facebook diminuíram drasticamente na última semana.
Poderia passar o dia escrevendo sobre o período em que não éramos responsáveis por nada, às vezes nem pela gente mesmo. Simplesmente porque acreditávamos que sempre haveria quem nos protegesse, nos cuidasse, nos alimentasse e pagasse todas as nossas contas. E que nunca nos faltaria abraços, beijos, milagres, amores, viagens e sonhos. E que tudo simplesmente seria apenas justo e bom.
De repente, sem aviso nem bilhete, a gente cresce, fica adulto e, ingênuo, entra no sistema de onde é praticamente impossível sair ileso. Vai para um lugar onde é proibido se cansar, parar, respirar e viver com alguma dignidade o terceiro tempo. Pois é, quem poderia imaginar que justo quando você está cansada, sim muito cansada, o sistema decide que você não trabalhou o suficiente. Que é preciso pagar mais, trabalhar mais, contribuir mais, para que eles, do sistema, que nunca precisarão de aposentadoria, possam gastar à vontade às nossas custas.
Quer saber? Para o mundo que eu quero descer. E voltar para aquele balanço debaixo da mangueira, onde a vida nos parecia tão fácil. E era.