Aristides era o típico cidadão urbano por excelência: nasceu, cresceu, estudou e trabalhou sempre na cidade. Era servidor público e ocupava um ótimo cargo, percebendo excelente salário.
Por isso, sendo solteiro, levava uma vida de prazeres, apreciando todos os confortos e facilidades que a cidade pode proporcionar. Frequentava ótimos restaurantes e bebia os melhores vinhos. Dizia simplesmente adorar sua cidade. Viajava a lugares badalados em suas férias.
Jamais colocou os pés no chão da zona rural, mas, certo dia, recaindo um feriado na quinta-feira, teve a sexta-feira “enforcada” pelo denominado “ponto facultativo” (como é praxe no Brasil) e, por isso, foi convidado por um amigo a passar o final de semana prolongado em sua propriedade rural, uma bela fazenda, com casa dotada de todo o conforto, localizada nas bordas do Pantanal, no município de Aquidauana.
Partiram na sexta-feira pela manhã, em avião do fazendeiro, chegando a tempo para o lauto almoço que já os esperava, um churrasco tipicamente gaúcho (seu amigo era do Rio Grande do Sul). Antes do almoço, porém, houve a inevitável rodada de chimarrão, quando Aristides deu seu primeiro vexame. Um tanto incomodado ao ver a cuia da bebida passar de mão em mão e de boca em boca, aceitou experimentar a infusão quando lhe foi passado o recipiente recém reabastecido.
Sorveu tão forte a bomba que um grande gole de água fervente encheu-lhe a boca e queimou-lhe a língua, ao que ele cuspiu tudo disparando impropérios e provocando gargalhadas na peonada que compunha a roda em torno da chaleira.
Descansaram à tarde, passearam a pé nas redondezas da casa de sede, conversaram muito e, à noite, foi servido o jantar antecedido por mais chimarrão, que ele recusou peremptoriamente. Ficou combinado que, no sábado, muito cedo, iriam assistir à ordenha das vacas leiteiras no curral.
Um tanto contrariado, acordou de madrugada ante as fortes batidas na porta de seu quarto. Vestiu-se, saiu e acompanhou o dono da fazenda ao mangueiro, onde, ainda no escuro, os peões se encontravam na lida. Observou tudo com muita curiosidade e bebeu o leite quente recém saído do úbere das vacas. Depois do quebra torto, saíram a cavalgar pelas exuberantes pastagens, lotadas com o mais puro nelore, regressando ao meio dia para novo churrasco.
Vivamente impressionado com o que vira antes, resolveu ele mesmo ordenhar uma vaca, para contar a proeza aos seus amigos da cidade, mas decidiu fazê-lo às escondidas, com receio de pagar novo mico.
Acordou antes de todos no domingo e, munido de um balde e um banquinho, foi rapidamente para o mangueiro. Entrou, aproximou-se do animal mais próximo, que ruminava placidamente, sentou-se no banquinho bem junto e pôs o balde embaixo. Quando ia pegar a teta assustou-se com o grito de um peão que chegava: “U quê c’ocê tá fazeno?” “Vou tirar leite desta vaquinha”, respondeu ele. E o outro: “Ocê tá lôco? Esse aí é um tôro!” (O final da história é outro, mas o pudor impede-me de contá-lo aqui.)
*Advogado e escritor ([email protected])