Campo Grande é extremamente passiva, não resta dúvida. Em metrópoles onde o transporte é bem menos pior que aqui, qualquer mexida em míseros centavos alastram manifestações pelo país todo. No entanto, aqui parece nada acontecer. Os campo-grandenses vão aceitar calados um aumento abusivo por um serviço que foi, é, e que infelizmente talvez continue sendo de péssima qualidade.
Somente quem já teve o desprazer de adentrar a um coletivo em Campo Grande sabe o que ele realmente é. Por fora, as acomodações parecem ser bem agradáveis. Os carros grandes, vidros escuros, os letreiros coloridos, as laterais anunciam que ali tem wi-fi e ar condicionado. Só quem está do lado de dentro pode desmentir o que é veiculado por fora. Ônibus atrasados, lotados, sem espaço para sentar e até para ficar em pé, ventilação quase inexistente. Todos respiram o suor alheio num ar rarefeito. Para aumentar espaço, os bancos reservados antes da catraca foram excluídos, passando para depois dela. E quem tem direito ao lugar por lei como grávidas, idosos, obesos, mães com crianças de colo, precisam disputar a vaga com o resto dos usuários ou contar com a boa vontade de algumas poucas almas caridosas.
Durante a semana, são os estudantes que vão estudar longe de casa mesmo quando têm vaga na esquina de onde residem. Ali, os jovens, vulgo futuro do país, organizam suas rodinhas de conversa onde exalam palavrões e funks pornográficos, poucos importando se no mesmo recinto estão crianças ou idosos almejando os lugares onde estão alojados com a trupe. Nos fins de semana, boa parte da mesma turma vai para as imediações de shoppings e parques onde querem embarcar alcoolizados, drogados e sem pagar passagem. Motoristas acuados e com medo de represálias cedem ao vandalismo. A população de bem que volta para casa precisa dividir a condução com a criminalidade, sempre pagando a passagem de todo o ser humanozinho que tem mais de quatro anos.
Nos terminais, não há bebedouros e nem banheiros. O espaço é quase que intransitável com toda a sorte de comércio que se instala no local. Segurança não se vê em nenhuma parte. Brigas, álcool, drogas e menores que transitam sozinhos altas horas da noite são cenário recorrente.
Nos pontos de ônibus, os usuários convivem com a falta de abrigo que os conduz à chuva, ao sol, ao mato e à ausência de ter onde sentar. Para piorar, quando o ônibus chega, uma cultura estranha se instaurou na cidade. Quem desce quer descer a qualquer custo, pouco se importando com quem está embaixo. E quem sobe quer subir também a qualquer custo, pouco se importando se todos que estavam dentro do ônibus já desceram. O atropelo é geral, as cotoveladas, empurrões, bolsas e sacolas no meio do caminho são inevitáveis.
Os cobradores sumiram dos ônibus. Para poder embarcar, o passageiro precisa adquirir um maldito cartão, o qual na maioria das vezes não se vende perto de onde se pega o ônibus e nem em todos os horários. Desprevenido, o passageiro precisa ir encurralado na frente do ônibus, quase disputando espaço com o motorista para que possa chegar ao terminal e pagar a sua passagem. Isso quando o ônibus vai para o terminal, caso contrário, ele precisa descer no meio do caminho ou implorar que algum companheiro de infortúnio lhe venda uma unidade de cartão.
Para pedir uma informação, o passageiro precisa conversar aos berros com o motorista, o que já é uma arbitrariedade, uma vez que ninguém pode dialogar com o condutor. Ou se tiver mais uma vez um pouco de sorte, um anjo do coletivo lhe dá a informação desejada.
Todas essas mazelas somadas a um aumento de R$3,55. Os trinta centavos a mais são uma espécie preço da morte. É como se pagássemos um plano funerário para sermos enterrados diariamente numa vala comum.