Têm-se prédio novo, mobiliário novo, mas faltam itens essenciais: medicamentos, equipamentos e, principalmente, profissionais da área da saúde.
Há grave contrassenso entre os investimentos feitos em infraestrutura e os recursos disponíveis para manutenção dos novos espaços criados. Milhões são gastos todos os anos em construções que não são devidamente aproveitadas. Em Campo Grande, existem quase 80 postos de saúde, número que parece contraditório ao ser comparado com as dificuldades enfrentadas pelos pacientes que dependem de atendimento na rede pública. Afinal, é óbvio que a população não vai procurar a unidade sem médico, mesmo que fique mais perto de casa. Surgem as incoerências: verba pública é desperdiçada e hospitais públicos, que poderiam estar atendendo casos mais complexos, ficam superlotados.
Em alguns casos, as inaugurações de prédios públicos acabam simbolizando apenas marketing político. O Governo Federal disponibiliza recurso para a construção. O prefeito demonstra interesse e oferece a contrapartida ou cede terreno para viabilizar o investimento. Juntos, esses gestores afixam placas anunciando a obra e até promovem solenidades para “ostentar” o novo benefício à população. Por fim, têm-se prédio novo, mobiliário novo, mas faltam itens essenciais: medicamentos, equipamentos e, principalmente, profissionais da área da saúde. Faltou planejamento no direcionamento dessa verba e, assim, criam-se os “elefantes brancos”.
Reportagem publicada ontem pelo Correio do Estado mostra três Unidades de Pronto Atendimento Médico (UPAs) inauguradas neste ano - nos bairros Moreninhas, Leblon e Santa Mônica - que acabam tendo pouca procura justamente por não contarem com estrutura adequada para atendimento. Assim, pacientes superlotam outras unidades, a exemplo dos bairros Coronel Antonino, Vila Almeida ou Universitário. Ainda, hospitais acabam sentindo o reflexo dessa sobrecarga. O Regional Rosa Pedrossian, por exemplo, funciona como um “postão” e acaba suprindo parte dessa demanda. Isso tem um preço. O local, bem estruturado, deixa de ser referência em casos mais complexos e a dependência da Santa Casa torna-se cada vez maior.
Teríamos, obviamente, melhorias significativas caso todas as exigências preconizadas pelo Ministério da Saúde ou cobranças feitas pelo Ministério Público em inquéritos e até ações judiciais fossem acatadas. Tornam-se utópicas, porém, se comparadas às graves dificuldades financeiras enfrentadas pelos gestores, neste momento de queda na arrecadação. O cenário atual em Campo Grande é desalentador. Exames estão suspensos porque materiais não foram comprados, faltam medicamentos e até verba precisou ser bloqueada pela Justiça para garantir repasses que Município deveria ter feito, a exemplo do Hospital de Câncer.
Se um gestor recusa verba para construir um posto de saúde, certamente seria taxado de insensato. Porém, nessa situação de colapso, é inevitável refletir sobre a necessidade de priorizar investimentos. O Governo Federal entrega “presente de grego” aos municípios ao destinar verba para construção e, ao mesmo tempo, promover cortes no setor da saúde. O planejamento não é feito de forma conjunta. Essas incoerências no gasto do dinheiro público consistem em apenas um dos males da má administração.