O discurso monocórdico de toda a mídia insiste em apregoar a necessidade do sacrifício de todos para salvarmos o país da profunda crise em que se encontra, alegando ser esta a maior de nossa História. Primeiramente, há dúvidas de que a atual conjuntura seja pior do que a vivida no início dos anos 80, quando a dívida externa impunha nossa submissão ao FMI.
Quem não se lembra da arrogante Ana Maria Jul deitando regras e tratando as autoridades brasileiras como estudantes mal comportados? Quem se esqueceu do “setembro negro”, em 1982, quando diversas economias latino-americanas, Brasil inclusive, tiveram dificuldades ou deixaram de honrar o pagamento do serviço da dívida junto aos credores internacionais? E a decantada “década perdida”?
Então, é preciso rememorar situações piores e mais humilhantes do que a de agora, a qual nos tentam impingir como a mais desastrosa crise econômica de todos os tempos. Parece não corresponder à verdade. Obviamente, essa narrativa quase apocalíptica, se de um lado levanta argumentos para despertar na massa o pânico por um inevitável futuro trágico; de outro, oculta, deliberadamente, muitos elementos que não lhe convém discutir.
De início, se o Estado, em todos os níveis de governo, está falido ou em condições pré-falimentares, como se chegou a isso? Onde fica a incúria de sucessivos mandatos executivos e a responsabilidade de quem exerceu o poder? Qual é a exata conta da corrupção passada e presente, porque alguém duvida de que ela continue sendo praticada? Qual é a conta dos contratos de prestação de serviço, pois, ao que tudo indica, este tem sido, ao lado das obras, um filão privilegiado para a malversação dos dinheiros públicos. Dentre outras áreas, informática; reprografia; manutenção e conservação de prédios e equipamentos; publicidade; locação de imóveis e veículos; quanto se gasta nisso? Como é realizado o controle da prestação desses serviços? E as consultorias “especializadas”? Não há gordura para ser queimada?
E aí, somos bombardeados com notícias sobre o déficit da previdência, hoje agravado pela transição demográfica, quando cresce o número de velhos, diante da dilatação da esperança de vida e diminui o número de crianças, devido à drástica redução da taxa de natalidade. Mas, como o nome indica, uma transição não acontece do dia para a noite.
Desde a década dos 70, após o advento da pílula anticoncepcional, assiste-se ao decréscimo dos nascimentos ao mesmo tempo em que, devido a inúmeros fatores, aumenta a média da idade ao morrer. Logo, se os responsáveis pela previdência tivessem sido previdentes, deveriam saber que se chegaria a uma situação assim. Aqui, é importante lembrar que durante décadas (o nosso sistema previdenciário foi instituído por Vargas, há mais de 70 anos) houve muito mais gente contribuindo do que recebendo benefícios. Para onde foi todo esse dinheiro?
Agora, tentam nos fazer crer que sem os remédios amargos de uma reforma previdenciária, para a qual todos deverão contribuir com sua cota de sacrifícios, não haverá salvação.
Falácia. O “todos” a que o discurso oficial se refere é a massa trabalhadora, é a classe média, são os assalariados sobre cujos ombros sempre recai a conta a pagar. Nesse “todos” não se incluem os nobres parlamentares que, advogando em causa própria, estarão imunes aos efeitos da reforma. Nesse “todos” não se abrangem os detentores de grandes fortunas, isentos do pagamento de impostos, desde 88, pois não houve até hoje a regulamentação do aludido tributo.
Nesse “todos” não se incluem os bancos e demais instituições financeiras, aquinhoados com taxas de juros elevadíssimas e carga tributária irrisória; já que o ônus, como sempre, atingirá só os assalariados, sejam servidores públicos ou empregados do setor privado.
Não a mais essa manobra contra os trabalhadores, únicas vítimas da pretendida “reforma”. Que se promovam outras medidas para tirar dinheiro de quem tem. Chega de sacrifício!