Quando elas começaram, achei emocionante auxiliar em audiências com crimes tão latentes. Ficava imaginando como seria ver o rosto dos custodiados “ao vivo”.
Até então, eu só os via no CD do interrogatório, gravado durante a audiência de instrução. Para minha ficção, eles moravam nos processos e eram só nomes, no fim do expediente iam todos para o armário. Pra mim, uma coisa era ver o réu distante dos fatos. Outra era vê-lo quando acabou de ser preso, com a roupa e o cheiro do “crime”.
Fiquei curiosa pra saber se eles tinham um perfil, biótipo, um jeito de falar, um diferencial, marcas em comum, corte de cabelo...
Muitas coisas já me chamaram atenção nesse tipo de audiência. Um preso era tão jovem que comemorou o aniversário de 18 anos na minha frente; outra era tão doida que abaixou as calças para mostrar que tinha uma cesariana recente; outro dizia que se entorpeceu para criar coragem e cometer o crime; um gritava tanto, que eu fui servir água para conseguir controlá-lo; outro era tão inconsequente que dirigia com reduzida visão, com habilitação falsa, numa rodovia movimentada. E tantos são os que mentem suas extensas fichas criminais.
Certa vez, li uma mensagem de celular que dizia: “Só vai na certeza”. Essa certeza deve mover o criminoso. Que não raro, ao se ver preso, chora como criança pela escolha errada.
Nesse período de aprendizado, descobri que os réus têm diversos sotaques, idades, cores, tamanhos e sexo. Em comum somente a surpresa de estarem presos.
Para o custodiado, essa audiência é uma esperança. Está em jogo se ele fica solto ou preso, aguardando o fim do processo; se deve pagar fiança para aguardar solto; se fica preso em casa; se deve ficar longe de algum lugar específico...
Confesso que as primeiras audiências mexiam com minha cabeça. Certa vez, recebi a mensagem de que teria custódia naquele dia. Estava me aprontando para ir para o trabalho, moro perto da Justiça. Recolhi o lixo do cachorro, do banheiro e da cozinha para jogar fora do prédio. Peguei minha bolsa, fechei a casa, atravessei a rua correndo e cheguei ao trabalho. Então, me dei conta que estava com aquele monte de sacola de lixo transparente nas mãos e não havia local próximo pra eu jogar. Dei meia volta rumo à lixeira do meu prédio. Vergonha. Fiquei pensando na leitura comprometedora que essa cena poderia me trazer. Na volta, subi as escadas e o colega que cuida das câmeras de segurança comentou o assunto. Fui descoberta. Eu mesma cuidei de contar e a leitura foi a mais terrível que se possa imaginar.
Passados meses auxiliando nas audiências de custódia, não levo mais o lixo para o trabalho, só consigo sentir uma emoção diferente em cada audiência porque são únicas, tratam sempre de liberdade, o maior bem que o ser humano tem.