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CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "É mais fácil culpar o sistema"

Confira o editorial desta quinta-feira: "É mais fácil culpar o sistema"

Redação

05/01/2017 - 03h00
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De uns tempos para cá, a culpa pelos problemas passou a recair menos sobre pessoas e autoridades, e mais sobre entes abstratos.

Fatos ocorridos na última semana em cidades de Mato Grosso do Sul e do Brasil chamam atenção para problema cada vez mais recorrente na sociedade: a fuga da responsabilidade pessoal. As culpas pelos problemas de uns tempos para cá, passou a recair sobre  entes abstratos.

Na rebelião do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus (AM), por exemplo, especialistas apressaram-se em culpar o “sistema perverso” pelo massacre que culminou na morte de 56 detentos da unidade prisional. Assim, é mais fácil tirar os ombros do Estado, que pouco investiu na construção de penitenciárias; da União, que quase nada faz para reforçar o controle na fronteira, impedir a entrada de drogas, e repassar recursos para administrar o sistema prisional. Para as autoridades dos poderes constituídos - Judiciário, Legislativo e Executivo - tudo também fica mais fácil, quando o “sistema”, grande culpado pelos males da humanidade, é acusado novamente.

Em uma época marcada pela circulação rápida de informação, e de opiniões emitidas na mesma velocidade, as imagens das autoridades podem também sofrer abalo abrupto. Para um juiz, para um policial, para um delegado, dentre outras autoridades, é muito mais fácil se eximir, que atribuir o peso de suas decisões a entes abstratos.

O mesmo ocorreu nos últimos dias, em Campo Grande. As decisões tomadas pelas autoridades envolvendo o assassinato do empresário Adriano Correia do Nascimento, praticado pelo policial rodoviário federal Ricardo Su Moon, tem caminhado na direção de culpar a vítima e proteger o autor do crime. Com as autoridades aparentemente se escondendo atrás de suas instituições.

No último domingo, juiz libertou o policial que disparou nove vezes contra a caminhonete de Adriano, sob a argumentação de que ele “não oferece risco à sociedade”. Antes mesmo de ser preso sem ter sido algemado - e ainda não é possível afirmar se Moon ficou em uma cela - a Polícia Militar deu ao policial rodoviário, tratamento que se dá a um colega de trabalho que acaba de executar um criminoso. Ocorre que Adriano Correia não era criminoso. Era um empreendedor que mantinha dois restaurantes e empregava aproximadamente 40 pessoas.

Delegada da Polícia Civil revelou anteontem, conforme reportagem publicada neste jornal, que um dos focos da investigação, é apurar se a vítima consumiu álcool na casa noturna onde estava, e como teria sido os passos dela naquele ambiente, antes de entrar na caminhonete, e fechar, ainda que involuntariamente, o carro do policial rodoviário. Declarações formais ou em entrevista destas autoridades, demonstra que a aparente proteção ao autor do crime ocorre por meio das instituições. As ações são sempre “do Judiciário”, da Polícia Civil”, da Polícia Militar”, nunca das autoridades que as constituem.

A organização da sociedade como conhecemos corre sério risco com esta abstração das responsabilidades das autoridades. Quem toma decisões, deve justificá-las, arcar com as consequências dela, e ter a ciência dos efeitos que serão produzidos para todos. Situações típicas da vida adulta. Somente crianças, adolescentes e pessoas não capazes é que são isentos de responsabilizarem-se por seus atos.
 

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