Do final dos anos trinta até metade dos anos quarenta, havia uma única emissora de rádio em Campo Grande, a PRI 7, Rádio Difusora. Sem concorrência, dominava soberana o cenário radiofônico da “Cidade das Primaveras”, como assim os poetas da época apelidaram nossa amada cidade. Numa média de cem por cento, os aparelhos locais de rádio eram sintonizados naquela emissora durante o dia, uma vez que as emissoras de fora só eram captadas aqui à noite.
De uma da tarde às sete da noite, todos os dias, inclusive sábados e domingos, a PRI 7 levava ao ar a Hora Social, através da qual os ouvintes ofereciam músicas uns aos outros, e assim os ares de Campo Grande impregnavam-se com a musicalidade predominante dos ritmos fronteiriços, e outras pérolas musicais de várias origens, que embeveciam a alma dos habitantes da terra morena.
Tradicionais rancheiras, modas de viola e baiões nordestinos, faziam da Hora Social um recital clássico. Chalana, Seriema, Mate Amargo, Quilômetro 11, Pássaro Campana, Chico Mineiro, Asa Branca, Andorinhas da Áustria, O Solo Mio... Era mesmo um aríete a bater forte dentro do coração dos ouvintes!
A Hora Social era o carro-chefe da programação da “Pioneira”. Animada com o estupendo sucesso da PRI 7, a direção da emissora resolveu introduzir a novela e o rádio-teatro, pois tal atração estava no auge da incipiente radiofonia brasileira. Assim, a dramatização de ocorrências do cotidiano era retratada no rádio-tetro, e as melosas histórias de amor, nas novelas. A emissora, então, constituiu um grupo de atrizes e atores escolhidos dentre seus próprios funcionários.
Formou-se o “cast” sob a direção de Sabino Preza: Antônio Del Nero e Vitória Monteserrat, ator e atriz principais; Arnaldo Rodrigues, Flaviano Lugo, Fausta Higa, Eremilce Vaccaro, Odila Silva, Luiza Shumzum, Roberto Yamashiro e Shimichio Higa, atores coadjuvantes; Aristides Ferreira na contra-regra e Gilson Ricci na sonoplastia; Paulo Paré e JB Ramos responsáveis pelos scripts. Empresas patrocinadoras: Riabelmo, fabricante do Licor de Pequi Cuiabano Renascença “O presente ideal de todo mato-grossense”, e Casa Vitor, “A líder no comércio de eletrodomésticos”.
Foi sucesso total. As fãs telefonavam, elogiando entusiasticamente os capítulos levados ao ar. A caixa postal da PRI 7 enchia de cartas elogiosas todos os dias. Aliás, os dramas eram muito bem executados, tanto pelos enredos, como pelo impecável desempenho dos atores. O velho Martins, proprietário da emissora - sempre com um cigarrinho de palha na boca -, andava muito contente com o resultado.
Os capítulos iam ao ar ao vivo, pois naquele tempo não havia material específico para correção de textos. Certa vez ocorreu um erro técnico assaz constrangedor. O drama se reportava a uma história de amor impossível entre dois jovens apaixonados. Numa das passagens da história, a sonoplastia – que fazia os efeitos sonoros – tinha de colocar em cima da fala dos jovens enamorados sons de pássaros gorjeando num jardim florido, enquanto o comentarista ia descrevendo o cenário de paz e ternura, que servia de fundo ao dialogo do casal enamorado.
Entretanto, por erro da contra-regra, o sonoplasta colocou a agulha na faixa de combate aéreo, levando ao ar os estrondos do terrível bombardeio aéreo de Roma na 2ª Guerra Mundial – uma barulheira infernal de sons de aviões de guerra e bombas caindo sobre a cidade, tendo ao fundo a gritaria de pavor da população civil!
A reação dos ouvintes veio depressa. O telefone da rádio não parou de tocar o dia inteiro. Os ouvintes, ao telefone, davam sonoras gargalhadas, e falavam frases jocosas a respeito do fiasco. Os jornais, no dia seguinte, não perdoaram. As manchetes esquentaram a cabeça do velho Martins: “Pássaros malucos detonam drama da PRI 7!”; “Ataque aéreo mata casal de namorados!”...