Escrevo este artigo muitos dias após o assassinato de Adriano Correia pelo Policial Rodoviário Federal Ricardo Hyun Su Moon. A tragédia provocou inúmeros debates e comoção pública, além de intenso furor contra o autor dos disparos, devido à violência exercida sobre a vítima e seus amigos, desproporcional ao pequeno desentendimento de trânsito. Uma passeata foi organizada por familiares e amigos, e as sequelas nos entes são permanentes. Mas qual o impacto real deste episódio na sociedade campo-grandense? Julgo necessário refletir sobre os sentimentos violentos presentes em diferentes momentos deste caso, assim como nas nossas pequenas atitudes. Desta forma, é possível extrair lições valiosas para este Ano Novo.
Raiva e desejo de vingança direcionados a quem age injustamente é recorrente ecompreensível. Em maior ou menor intensidade, todos compartilhamos desses sentimentos. Em vista disto, grandes obras de arte, tais como, “Ilíada”, “O Conde de Monte Cristo” e a história em quadrinhos “Batman” criam justiceiros e refletem sobre esse estado. Como essas estórias destacam a vingança movida por razões pessoais, penso ser válido apresentar-lhes outra personagem: Dexter.
Dexter é um assassino em série do seriado homônimo, e foi instruído pelo pai a matar apenas homicidas a fim de canalizar sua violência, pois seu “passageiro sombrio” não o abandona e, segundo o pai, “algumas pessoas merecem morrer”. O que pretende soar como serviço público, mostra-se como desculpa moral para destilar a ira reprimida. Dexter segue o código para não ser pego, não para fazer o bem. A violência o domina e, quando saciado, pode voltar para casa aliviado. Mas como uma criança quando ganha doces, Dexter não se satisfaz com um único pedaço. Ele é viciado na “Justiça”. Adequando a trama à vida real, desejo ponderar a respeito de nossa Síndrome de Dexter e outras formas de violência disfarçadas.
Possivelmente, a principal causa desta síndrome é a dificuldade em não reagir. A violência se torna reflexo a qualquer estímulo e revela sintomas de uma sociedade reativa. Nossos instintos pedem por uma resposta imediata. O PRF julgou necessário tirar satisfações com Adriano por conta de uma “fechada”. Outros julgam necessário re tribuir em igual medida a truculência do policial. Curiosamente, ambos lutam pela defesa do “bem” e pelo fim da injustiça. Então, por que preferimos agir impulsivamente em vez de adotar posturas mais sóbrias? A resposta “na ponta da língua” parece ideal para momentos de tensão, mas suas consequências são inestimáveis.
Quantas vezes optamos por uma ultrapassagem perigosa ou realizamos conversões proibidas para economizarmos tempo? Sempre esperando a compreensão de todos. Contudo, quando o outro faz, tornamo-nos Júri, Juiz e Carrasco. Buzinamos, sacamos nossas verdades e disparamos maldizeres. Há quem prefere falar com armas e revidar com balas, perfurando vidas e desfazendo os laços que mantêm a Humanidade viva. Diferentes doses do mesmo prazer.
A doçura da violência seduz a todos com seu sabor hedonista. E como Dexter, logo queremos mais, haja vista sua eficácia. Porém, basear nossa dieta — e postura frente à vida — em guloseimas pode prejudicar a saúde. Portanto, faz-se necessário um esforço maior nesse novo ano, priorizando o regime amargo, com verduras, legumes e mais reflexão, para garantir vidas e decisões mais saudáveis. Assim, poderemos compartilhar do amor à vida como ela é, sejam seus traços belos ou feios, desviar o olhar à violência contra nós e reduzir a velocidade de reação.