Artigos e Opinião

ARTIGO

Alysson Oliveira Moreira e Marçal Rogério Rizzo: "Sociedade dos holofotes"

Acadêmico de Direito e Professor do curso de Administração da UFMS/Três Lagoas, respectivamente

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Inicia-se aqui um breve debate acerca de um modus operandi aplicado quotidianamente em nossas vidas. A contemporaneidade convive com ares de uma sociedade que, nas redes sociais, aparenta ser o que não é, como fuga de uma realidade que não deseja viver. O fato é tão constrangedor, que até evitamos encará-lo com franqueza. De fato, ninguém quer assumir que age dessa forma. 

O ato de “aparecer”, no sentido real da palavra, pode ser percebido observando a timeline do Facebook ou as milhares de fotografias que circulam no WhatsApp. Selfies que retratam apenas segundos felizes e afortunados: a compra do carro novo; os pratos belos ou gourmets; as viagens; e até os bons momentos nos finais de semana. O consumo e a necessidade de mostrar ao mundo – já que, uma vez na internet, ao mundo se espalha o conteúdo (ou a falta dele...) quase de forma viral – parece ser o foco, e não a vida verdadeiramente bem vivida. O foco central é “se mostrar”, e não curtir o momento.

Controversamente, a realidade imposta pelo cosmos não é, muitas vezes, nem feliz, nem bonita, ou gourmet, como se vê nas redes sociais em geral. Vivemos em uma sociedade ainda profundamente marcada pela desigualdade, pela discriminação, pela segregação e pela violência – as situações imediatamente anteriores descritas já configuram uma forma de violência em si. O Ministro do Supremo Tribunal Federal e também Professor, Luís Roberto Barroso, evidencia esse contraste em uma de suas publicações: “Muitos dizem que a vida aqui é uma festa. E de fato ela pode ser. O problema é que se você for pobre, mulher, negro ou gay, é muito provável que não tenha sido convidado. Por trás do mito do ‘brasileiro cordial’ e da democracia racial, esconde-se uma história de injustiça e discriminação. A desigualdade extrema é marca profunda da formação social do Brasil. Somos herdeiros de uma sociedade escravocrata, acostumada a distinguir entre senhores e servos, brancos e negros, ricos e pobres. Fomos criados em uma cultura em que a origem social está acima do mérito e da virtude, e na qual, na percepção dos cidadãos e dos agentes estatais, parecem existir superiores e inferiores.” (Sabe com quem está falando? – http://www.luisrobertobarroso.com.br).

Não é pouco o que está em jogo. A vida social internauta ou virtual foge do mundo vivente ao disseminar apenas a parte feliz da existência, incluído o consumismo como forma de felicidade, compondo o modus operandi da aparência e da fuga da realidade. As coisas pequenas da vida e que realmente fazem sentido perdem valor.

Zygmund Bauman, na obra Vida líquida, aponta o ideal de vida líquida, que “é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta”. Diante da atualização constante, a possibilidade de lançar ao mundo e mostrar as aquisições e a felicidade via redes sociais atende a dinamicidade exigida pela realidade líquida moderna. Parece que essa aparência pública se relaciona com um sentimento de inclusão, de pertencimento a uma cultura ou grupo social do momento. Infelizmente é uma falsa aparência. 

Nesse mundo líquido de aparências e pertencimento, o homem se esquece da vivência real e sólida. Na fluidez líquida, os momentos ora retratados em fotos ou posts diluem-se – e a experiência de vida reduz-se a mera lembrança virtual. Deixa-se de realmente viver, amar, ter um sentimento de pertencimento interpessoal e, quando a realidade bate na face, as bases sólidas ora transformadas em líquidas não se sustentam.

A realidade do cosmos é dinâmica, uma oscilação de potência de agir. Nas definições de Espinosa, a passagem para um estado mais potente de ser denomina-se alegria, o encontro com um mundo alegrador, e a queda para um estado menos potente, tristeza.

Enfim, estejamos preparados, pois o mundo real nem sempre (ou quase nunca) é potencialmente alegrador.

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