Artigos e Opinião

CRÔNICA

Maria Adélia Menegazzo: "Estátua"

Maria Adélia Menegazzo: "Estátua"

Redação

07/02/2017 - 03h00

Brincadeira infantil das mais irritantes era esta de, ao primeiro grito “— Estátua!”, você ser obrigado a ficar paralisado pelo tempo que o mandante achasse pertinente. Fazia-se isso sem indagar da necessidade de tamanha obediência. 

Manoel de Barros vai virar estátua, ou melhor, vai ganhar forma em uma estátua. Não vai mais atravessar períodos de árvore, mas vai virar repositório de passarinhos, de fato. “As coisas que não levam a nada têm grande importância”, talvez ele observasse diante do fato, como também perguntaria: 

“— Quem sabe medir a importância das coisas?”. 

Eu não sei o que os leitores pensam, mas acho um atentado contra a inteligência homenagear um poeta com uma estátua e, ao mesmo tempo, extinguir a disciplina Literatura das escolas estaduais de Ensino Médio. O pretexto? Flexibilização do currículo. Arrumaram mais uma palavra para virar moda. Os alunos andam mal das pernas em Matemática, então vamos tirar as duas aulas semanais de Literatura; passamos uma para Matemática e uma para Português. Gênio! Numa canetada (porque tudo foi apresentado consagradamente), adolescentes de Mato Grosso do Sul não precisarão mais estudar Literatura, quando muito, ler; professores de Literatura concursados terão de aprender a ser professores de Língua Portuguesa; os não-concursados, procurem outra turma.

Quem sabe medir a importância das coisas? Quem sabe se contar é mais importante do que ler? Quem sabe se apreender um enunciado matemático é só uma questão de saber matemática? Quem sabe o caminho para o obscurantismo?

Não sou dada a tragédias, mas tenho pra mim que os responsáveis não se deram conta das consequências de seu ato. Está certo que estou aqui defendendo uma “cadeira”; para as centenas de professores de Literatura que ajudei a formar e, também, preocupada com aqueles que buscaram uma qualificação específica. Mas, principalmente, me preocupa as consequências na formação da população jovem do nosso estado.

A literatura não é só uma disciplina escolar e, ainda que muitos a desprezem como um luxo para ociosos, só nela as utopias, os desejos e as formas mais radicais de resistência à barbárie e às tolices podem ser encontradas. A literatura, mais do que mil tons de cinza, sabe muito sobre as fraquezas humanas e esclarece mais sutilmente sobre comportamentos e motivações; talvez, por isso, mereça ser extinta?

Nossos heróis de papel estão a ponto de virarem cinzas. O principal, de vir a ser apenas uma estátua. Quem sabe medir a importância das coisas?

*Professora de Literatura – aposentada – da UFMS

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