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Luiz Fernando Mirault Pinto: Previsibilidade

Luiz Fernando Mirault Pinto é físico e administrador

Redação

18/02/2017 - 02h00
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Confesso que não havia escutado a palavra “previsibilidade” antes das eleições de 2014 e lembro-me, naquele ano, ter comentado (Correio do Estado - In Memoriam & Post Mortem- 2 NOV 2014) que tal termo “pode ao mesmo tempo dizer tudo ou nada”, e ainda que “previsibilidade era o mote daqueles que achavam que mudariam a política, mas mantendo a mesma retórica de antanho”...

Logicamente, eu entendia o significado como a possibilidade de se prever o resultado de uma ação ou evento e que tornaria possível ajustar ou criar rotas alternativas, auxiliando a traçar perspectivas, ou mesmo a reconhecer o que está posto. Previsão ou prenúncio, probabilidade ou expectativa? Eram muitos significados para uma palavra, principalmente quando dita pelo candidato da oposição (na época) que prometia recuperar o legado de estabilidade econômica de FHC; encontrar o caminho da retomada do crescimento da nossa economia; enxugar ministérios; adotar uma política fiscal transparente e austera; resgatar a credibilidade; rediscutir o modelo de partilha para a exploração do petróleo da camada do pré-sal; e a previdência pública.

De lá para cá, a previsibilidade se estabeleceu num “passe de mágica”. Deixou de ser previsão para se tornar uma série de ações bem planejadas. O partido de oposição da época virou situação sem eleição.

Entrou com inúmeros pedidos na Justiça para que os resultados eleitorais fossem sustados como o financiamento da campanha adversária a ser investigado; contratou e pagou o relatório base de impeachment, tornando exequível um golpe parlamentar, sob os auspícios de congressistas cooptados, de uma mídia comprometida, de uma classe patronal interessada e de um público ludibriado, levando posteriormente à nomeação de não menos que os colaboradores suspeitos da gestão anterior. 

Essa tal previsibilidade já sabia que os ministérios seriam de “questionáveis”, que a inflação e os juros diminuiriam no dia seguinte do afastamento presidencial sem crime de responsabilidade, que o Senado seria representado pelo partido de mando, que a Assembleia seria dirigida por parlamentar apoiado de primeira hora e guindado à reeleição após interpretações 
esdrúxulas.

Não sei se estavam previstos acidentes de percurso, mas a previsibilidade seria a possibilidade de um representante da corte mudar de turma nos minutos finais do último tempo, para ser sorteado por computador como relator das operações investigatórias. Da mesma maneira, novos nomes citados pela delação premiada seriam mantidos em sigilo, até que fossem estabelecidos critérios para substituição dos palanques podres.

Sabemos hoje que a crise era mundial e não exclusividade brasileira ou de um único partido hostilizado, que a legitimidade da autoridade se dá pela vontade popular, por meio das eleições, e que as medidas impopulares e antissociais não prosperarão até que um líder nato venha a ocupar o comando da nação, independentemente da previsibilidade.

A escolha presidencial de um novo membro da corte suprema estaria condicionada a um nome de consenso, desde que aprovado após uma pré-sabatina em um barco; à indicação de um ilibado senador para presidir os trabalhos dessa indicação; a tentar transformar um secretário em ministro e à recriação de um ministério extinto com a nomeação de um deputado para garantir a “governabilidade”.

Enquanto isso, mexer na aposentadoria, privatizar parte do pré-sal, reduzir ministérios, adotar a política de austeridade, reduzindo os investimentos nas áreas sociais, e chantagear o Rio para privatizar as águas continuam a fazer parte do significado daquela previsibilidade. São ações que aguardam o momento a serem implantadas pelo modelo neoliberal.

Apesar de a Justiça manter em sigilo algumas investigações, como diz o dito popular, ela tarda, mas não falha. Certos políticos de peso, envolvidos até então em falcatruas, ainda serão surpreendidos, pois a previsibilidade não tem o poder de esconder o malfeito nem de impedir por meios escusos, por mais que se tente a candidatura de quem tiver o maior índice de preferência popular nas pesquisas eleitorais próximas.

A previsibilidade não muda o tempo, a evolução dos fatos, o caminho da história, quando muito nos dá a sensação enganosa de que estamos no controle do destino.

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