A marchinha Ó Abre Alas faz sucesso há mais de um século porque Chiquinha Gonzaga, uma mulher que viveu além do seu tempo, soube traduzir o espírito popular: Ó abre alas que eu quero passar. Peço licença pra poder desabafar...
Esse é o sentimento atual do povo brasileiro, diante da pior crise da nossa história, resultante da farra tramada por corruptos, corruptores e associados. A autêntica brasilidade expressa no carnaval está frontalmente oposta à falta de senso contida, por exemplo, no retorno da ideia de autorizar a venda de terras brasileiras a estrangeiros.
Nos próximos dias, o governo poderá apresentar uma MP ou apoiar um projeto de lei para autorizar a venda glebas de terra, com até 100 mil hectares, a estrangeiros, nas quais serão plantadas florestas para a indústria de celulose ou para servir ao setor sucroalcooleiro, como prometem os defensores da medida.
Mas, há razões para desconfiar da suposta responsabilidade e transparência, com que tais negócios vão funcionar na prática.
É ilusão pensar que esse tipo de investimento não afetará parte do agronegócio, comprometido com a produção de alimentos e insumos, cujos bons resultados têm ajudado a minimizar os efeitos da crise.
A ideia foi contestada por setores da segurança nacional e outras frentes sociais. Em entrevista recente, o ministro da Fazenda afirmou que, nos próximos dias a referida MP será enviada ao Congresso. O principal argumento apresentado foi a necessidade de atrair recursos para sair a crise.
O polêmico tema foi objeto de editorial recente do Correio do Estado (18.02.17), destacando as possíveis implicações negativas para o setor produtivo e os aspectos nebulosos que revestem esse tipo de solução, apoiada por vários parlamentares sul-mato-grossenses.
De fato, é muito estranha a coincidência entre os investimentos que o governo pretende destravar e os prejuízos acumulados pela Petrobrás, em parte devido à corrupção. A pretendida recuperação, por esse caminho, poderá ter efeitos colaterais devastadores na própria cadeia produtiva.
Cumpre torcer para que o território nacional e o setor produtivo associado à agricultura e pecuária não dancem depois desse carnaval. Acreditar nesse tipo de negócio de alto risco, nesse momento de fechamento dos países mais ricos, pode funcionar como roleta russa, com a arma apontada para a produção de alimentos.
Data vênia, senhores parlamentares, os investidores estrangeiros, potenciais compradores de terras, estarão muito mais comprometidos com as regras especulativas do mercado financeiro do que com o setor produtivo.
Seria mais sensato não perder de vista os valores mais expressivos do território como patrimônio da Nação. Resta ainda a esperança de que os últimos acontecimentos levem o governo a recuar.
Afinal, todo brasileiro merece curtir esse e vários outros carnavais, com segurança, emprego e sempre atento às votações noturnas do Congresso Nacional.