Artigos e Opinião

OPINIÃO

Gillianno Mazzetto: "Uber, uma questão a se pensar!"

Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional da UCDB

Redação

04/03/2017 - 01h00
Notícia sem imagem

Em nossos dias, nas nossas cidades brasileiras, estamos vivendo uma situação curiosa, que autores como Luc Ferry, no livro “La Révolution Transhumaniste” (2016), vão chamar de processo de “uberização” da vida. Antes de começar a pensar sobre isso, proponho uma mudança na forma de olhar. Para que consigamos pensar o fenômeno da “uberização”, é preciso assumir a atitude do observador estrangeiro, ou seja, daquele que não tem nenhuma ligação direta com a questão e que, por isso, pode olhá-la de maneira mais clara. 

O Uber, o Airbnb ou BlaBlaCar são versões de uma mesma lógica, que, muito mais que uma novidade, revelam um modo de se pensar e de se fazer economia. Estamos passando de uma economia da extração e do produtivismo para uma economia colaborativa, baseada na lógica do custo marginal zero. Oras, o que seria isso?

O custo marginal zero se caracteriza por uma estratégia econômica que diz mais ou menos o seguinte: os custos iniciais ligados aos investimentos são absorvidos ou amortizados na implementação do produto e toda a distribuição complementar não onera mais nada aquele que propõe. No caso do Uber, faz-se necessário cumprir alguns requisitos, vejamos: o interessado, primeiramente, precisa baixar e se cadastrar no aplicativo; na sequência, apresentar seguro e licenças do veículo, condições básicas para que o veículo transite e proporcione o mínimo de conforto aos passageiros; apresentar  Carteira Nacional de Habilitação e Certidão de Antecedentes Criminais; participar de capacitação on-line e pagamento de impostos, permitindo a autorização inicial para a prestação dos serviços. 

O custo marginal zero pode ser notado na seguinte questão: o motorista não precisa fazer grandes investimentos para ser parceiro do Uber. Ele apenas precisa cumprir os requisitos mínimos de um “cidadão de bem”, pagar os impostos, estar com os documentos em dia e não ter antecedente criminal – isto demonstra a lógica por trás dessa atividade, a saber: compartilhar bens pessoais, no caso, o carro, pode se transformar em um bom negócio.

Quem pode ajudar a entender esse processo de transformação econômica é o autor Jeremy Rifkin, em sua publicação “La Nouvelle Societé du Côut Marginal Zéro” (2014). Segundo ele, a sociedade ocidental é marcada por três revoluções industriais. A primeira, no século 18, com a invenção da máquina a vapor; a segunda, no século 19, que proporcionou o desenvolvimento exponencial do capitalismo; e a terceira, marcada pelo uso de novas energias, tais como a eólica, fotovoltaica, metano, biocombustível e também por um novo meio de comunicação, a internet. 

Este novo canal de comunicação, principalmente, tem produzido efeitos sobre a lógica das relações econômicas das pessoas. A internet, marcada pela característica de ser um espaço de organização e economia lateral por meio de uma estrutura que comumente assume as formas de algo para além das fronteiras nacionais, descentralizada e não hierarquizada, tem produzido uma nova forma de se pensar e de se mover com a economia.

Hoje, podemos comprar e vender produtos em sites como OLX, podemos transformar o nosso carro e a nossa casa em negócio, por meio de aplicativos como Uber e Airbnb, sem que isso implique uma série de protocolos e processos jurídicos; muitas vezes, basta se cadastrar na rede de colaboração, como no caso dos dois aplicativos acima citados, e começar a trabalhar. 

Ocorre que essa nova forma de economia colaborativa tem produzido efeitos curiosos, pois, como está ancorada sob a lógica da colaboração e do custo marginal zero, tal modelo econômico tem produzido desconforto e repulsa em outros modelos tradicionais, principalmente naqueles pautados por regimes sedimentados e estruturados. 

A lógica do pensamento e da economia lateral insuflada pela internet tem motivado polêmicas e preocupações, pois essa “aparente liberdade” com a qual os usuários e “motoristas Uber” se valem soa para as autoridades e sociedades tradicionalmente organizadas como uma forma de “ganhar dinheiro fácil e de maneira indevida”, incentivando a suposta concorrência desleal.

De fato, muito mais que apoiar ou condenar tais movimentos, faz-se necessário, por sua vez, entendê-los como manifestação das mudanças dos paradigmas sociais, já que o cenário atual, para alguns, apresenta-se como fechado, e para outros, como uma oportunidade de utilizar novas estratégias como recursos disponíveis e ferramentas de trabalho. 
Estamos diante de um cenário interessante. Para uns, este se apresenta como um tempo fechado e de trovoadas; para outros, uma oportunidade para fazer dinheiro com os recursos disponíveis. O mais importante não é o fato de condenar ou apoiar estas novas iniciativas econômicas, mas sim buscar entender o que tais realidades permitem pensar.

Artigos

Entre a estabilidade e o crescimento: o dilema dos juros no Brasil

O diagnóstico merece debate, mas reduzir a Selic por decreto ou a submeter a um conselho político não elimina os riscos de inflação, fuga de capitais e desvalorização cambial

05/11/2026 07h35

Artigo Correio do Estado

Artigo Correio do Estado

Continue Lendo...

Editorial

Chega de caixa-preta nos cofres estaduais

A estagnação no faturamento estadual ocorreu em um período em que as autoridades locais se vangloriavam do crescimento em ritmo chinês do Produto Interno Bruto (PIB) local

05/11/2026 07h20

Artigo Correio do Estado

Artigo Correio do Estado

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).