Era o ano de 2005, quando organizamos uma série de debates no Museu de Arte Contemporânea de MS. Os convidados, eminentes professores de universidades brasileiras, abordaram assuntos de grande interesse naqueles idos. Entre eles, um professor de Ética bastante conhecido e respeitado. Falou sobre as diferenças entre ética e moral, utilizando as literaturas antiga e a atual como fontes.
No início dos debates, um estudante fez uma pergunta, ou melhor, deu um verdadeiro show de conhecimentos históricos e sociológicos. Assim que o professor começou a responder, notei que o rapaz não estava mais prestando atenção. Chegou, inclusive, a sair do anfiteatro antes do final dos debates. Achei que só eu tivesse notado aquela, no mínimo, falta de educação, mas fui surpreendida pelo professor, que me afirmou, logo após: “Não se preocupe, ele não estava interessado na resposta, só queria se mostrar inteligente”. Este episódio me veio à memória enquanto lia um romance que narra a história de um professor de uma universidade americana, nas primeiras décadas do século 20. Em determinado momento, um aluno deveria dar um seminário sobre um tema específico e, por duas vezes, pediu que fosse adiado.
Quando finalmente se apresentou, nada mais fez senão argumentar contra o seminário de uma outra aluna. A argumentação foi brilhante, arrasou o trabalho da colega, mas não passou nem perto do tema sobre o qual deveria discorrer, porque lhe era totalmente desconhecido.
Era um aluno brilhante, porém, incompetente para a disciplina, não possuía o conhecimento básico para cursá-la. Este aluno trouxe graves consequências para a vida e para a carreira do professor. Mas não vou contar toda a história, evidentemente.
Apenas fiquei pensando que posso ter conhecido muitas pessoas, muitos alunos, e também colegas e professores, desse tipo. São brilhantes na medida em que desconstroem o trabalho do outro, mas, geralmente, com falso cientificismo em trabalhos próprios, apresentam argumentos insustentáveis e inacreditáveis até para o senso comum. Não precisam ser, basta parecer que são. O mais chocante (no romance e na vida) é que o esforço na busca do conhecimento, daqueles que são apaixonados pelo trabalho que fazem, chega a um ponto em que não tem mais importância.
Como diz o professor–personagem: “Sonhara com uma espécie de integridade, uma espécie de pureza imaculada, mas encontrara a banalidade e a força destrutiva da superficialidade. Aspirava à sabedoria e, no fim de longos anos, encontrara a ignorância. ‘E o que mais?’, ele pensou. ‘O que mais? O que você esperava?’, perguntou a si mesmo”. O que você esperava?
PS: Em tempo, o nome do livro é “Stoner”. O autor, John Williams. No Brasil, desde 2015.