Reside aqui, nesta capital, uma grande mulher quase invisível, dotada de grande sensibilidade e profundo senso de humanismo. Corajosa e decidida, não pode ser atingida pelas sombras e muito menos pelas trevas. Às vezes, tenho a impressão de que não pertence a este mundo revolto, desigual e turbulento. Mesmo com idade já um pouco avançada, continua parecendo uma criança.
No começo de sua difícil e inacreditável missão nesta Região Centro-Oeste, viveu perigosamente, pelas estradas, a aventura para poder transformar um depósito de mortos-vivos em uma verdadeira comunidade de amor e respeito ao próximo. Como criatura humana, deve ter tido, muitas vezes, o coração devastado pela urgência das inúmeras necessidades daqueles pobres infelizes exilados de suas famílias e de suas cidades. A sua forte personalidade é indivisível. Chego a imaginar que saiu de um livro de contos de fadas. Ela nasceu na Itália, mas está ligada a esta terra por laços de uma longa amizade.
Recentemente, jantando em Cuiabá com a Dra. Leila Francisca de Souza, ex-assessora do governador de Mato Grosso Pedro Pedrossian, com meus amigos Fernando Tadeu Borges de Miranda e Benedito Campos, recolhi dados de valor inestimável sobre os seus esforços para fortalecer o Hospital São Julião, garantindo a presença da missão religiosa de italianos. Ela viu de fato as coisas maravilhosas e terríveis que aconteciam no leprosário naqueles tempos sombrios. Pela fé, pela coragem e pela integridade, tornou-se irmã de todos os que ali buscavam refúgio e esperança para suas vidas. Na cidade de João Pessoa, minha terra natal, também ouvi agora a ilustre professora de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba, Elisabeth Romano, igualmente italiana, dizendo-me que, atrás daquele rosto delicado, existe um cérebro penetrante.
Em certa ocasião, eu lhe ofereci o livro “Três Contos”, de Gustave Flaubert, no qual contém “A Legenda de São Julião Hospitaleiro”, remontando a memória infantil do autor, que viu a história do santo parricida representada num dos mais belos vitrais da Catedral de Ruen, na França. O famoso conto apresenta-se como hagiografia e relata o caminho pelo qual o homem se torna santo. Segundo a tradição da igreja, é pela fé, esperança e caridade, bem como pela operação de milagres. Conforme os principais críticos, as circunstâncias de ordem histórica e psicológica são desimportantes. Tanto parece ser verdade que, nos estudos de história medieval, São Julião ficou conhecido como Oedipus Christianus.
Escrevi estas notas para saudar a Irmã Silvia Vecellio e também a Dra. Beatriz Figueiredo Dobashi, que escreveram, juntas, “Histórias do São Julião”. Recomendo a leitura. É de uma beleza comovente.