Sentado solitariamente a uma mesinha numa cafeteria e confeitaria da Capital, que costumo frequentar vez ou outra, saboreando um cappuccino e uma fatia de torta de brigadeiro (ou teria sido prestígio, de limão, de nozes, sei lá – são todas a minha perdição), observei do lado de fora, na movimentada rua, um portentoso e luxuoso SUV (Sport Utility Vehicle, na língua-mãe) aproximando-se da única e apertada vaga de estacionamento disponível.
Seus vidros eram todos escuros e não permitiam ver a pessoa ou as pessoas em seu interior. Eu estava junto a uma grande parede de vidro, com ampla visão da calçada e da via.
Primeiro o(a) motorista tentou entrar diretamente na vaga, mas, obviamente, isso não foi possível, dada a limitação de espaço. Avançou um pouco à frente, engatou a marcha à ré e tentou estacionar nesse sentido, mas esterçou a direção além do necessário e bateu com a roda no meio-fio.
Outra vez avançou e novamente tentou, mas, dessa vez, não virou o suficiente e ficou muito longe da guia do passeio. Repetiu a manobra e mais uma vez errou. Para sua sorte, não havia por perto os costumeiros engraçadinhos que se aproveitam dessas situações e ficam dirigindo gracejos, fazendo piadas ou comentários depreciativos, do tipo “tirou a carta por telefone?”, “está amaciando a carteira?”, e por aí afora. Então pareceu desistir: ficou ali parado(a), talvez aguardando que alguém fosse em seu socorro, ou pensando no que fazer.
Fiquei imaginando quem seria a criatura por trás do volante daquele colosso sobre rodas, de causar inveja aos pobres mortais, um modelo cujo preço, noticiado nos anúncios em jornais e revistas, gira em torno dos trezentos, quatrocentos mil reais. Pensei: obviamente, trata-se de pessoa com alto poder aquisitivo, bafejada pelos ares da fortuna. Ou seria alguém que, para satisfazer uma extrema vaidade, ostentando essa bela máquina, se endividou assumindo um financiamento que, talvez, não conseguirá pagar? Há muito disso por aí.
Ao mesmo tempo, lembrei-me de que, ultimamente, tem sido comum a Justiça apreender bens valiosos de traficantes, contrabandistas e políticos corruptos, que adoram se exibir com esses sinais de riqueza. São mansões, carros de luxo, aviões, etc.
Continuei observando o veículo que não se movimentava, e do qual ninguém saía. De repente, para alívio do(a) condutor(a), alguém se dirigiu ao veículo estacionado à sua frente e partiu, abrindo uma grande vaga, na qual ele(ela) pôde finalmente se acomodar. Aí, sim, bem estacionado o carro, aguardei com curiosidade a saída de seu(sua) condutor(a) que, certamente, viria para o estabelecimento onde me encontrava.
Mas, para minha decepção, abriu-se rapidamente a porta traseira do lado oposto à minha posição, da qual saiu uma senhora de aspecto humilde, provavelmente secretária do lar. Não consegui, assim, ver o interior do veículo. A mulher veio à padaria, adquiriu alguns itens e retornou depressa ao veículo, que partiu acelerando ruidosamente, “cantando pneus”.
*Advogado e escritor
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