Nesta fase de minha vida, o período das folias carnavalescas é de apenas recordações daqueles momentos alegres vividos na mocidade e que não voltarão jamais. Das muitas lembranças que me surgem nesses instantes de nostalgia, relatarei aquela que presenciei em Copenhague, Reino da Dinamarca, justamente no mês de fevereiro, quando lá imperava os folguedos momescos, 1985.
Lá fui como integrante de Missão Parlamentar Brasileira em visita oficial àquele país, com quem o Brasil sempre teve relações diplomáticas e comerciais intensas. Tais circunstâncias deram relevo à nossa visita nos encontros com as autoridades governamentais e lideranças dos meios empresariais. Além disso, foram feitas visitas ao hinterland do país, principalmente em fazendas de produção leiteira (a Dinamarca tem uma posição de vanguarda na industrialização do leite em pó). Na região de Odense, cidade histórica e terra natal de Hans Christian Andersen, o célebre autor de “O Patinho Feio”, uma das obras mais expressivas da literatura infantil mundial, presenciou-se a intensa atividade rural daquele obreiro povo. Na região de Celândia, no extremo norte da ilha onde está a capital Copenhague, impressionou-nos o Castelo de Elsindore, onde, segundo registra a história, Shakespeare se inspirou para escrever a memorável peça teatral “Hamlet”.
Admirei a Dinamarca, seu sistema de governo parlamentarista, sua realeza sóbria – a rainha circulava pelas ruas sem o menor aparato oficial de segurança. Encantou-me também a estátua de bronze que simboliza a pequena sereia “Den Lille Havfrue”, assentada em pedra num remanso do mar, marco da obstinação daquele povo de milenar tradição.
Agora, o fato pitoresco: a delegação parlamentar foi convidada para participar da “noite do Carnaval brasileiro”, uma atração surpreendente lá naquelas alturas nórdicas à temperatura abaixo de zero. Foi no principal hotel da cidade. O conjunto animador do baile carnavalesco viera da Noruega, também país nórdico, e tinha a direção de um ex-ritmista de samba dos morros cariocas, um crioulão simpático há anos vivendo em Oslo (capital da Noruega), casado com uma senhora muito rica – segundo a “tia Candinha” escandinava divulgou.
Vestia-se “à lá Chacrinha” e o restante do conjunto era integrado por jovens noruegueses estilizados “cariocas” com suas cuícas, tamborins, afoxés e balangandãs. O baile em si não tinha o calor e a ginga típicos de nosso Carnaval, a não ser pela apresentação de algumas licenciosidades de arrepiar os cabelos do porteiro do inferno! Inusitado também foi o meu encontro no festim com um antigo colega de faculdade, exilado político naquele país desde 1964. Simpático e caloroso, apresentou-me sua nova esposa e vangloriou ser a enésima!?...
Realizei outras viagens internacionais em razão do mandato parlamentar federal, em missão oficial, e em algumas delas presenciei fatos inusitados. Eu me recordo de alguns que pretendo relatar ainda nesta coluna que o Correio do Estado me faculta há muitos anos; na realidade, desde 1954, quando ainda era estudante universitário.