Artigos e Opinião

ARTIGO

Raquel Anderson: "Sentimentos outonais..."

Historiadora e escritora

Redação

26/03/2017 - 02h00
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O silêncio gélido tudo emudeceu, sem altivez e sem poesia, a gaveta trancada, a resistência que não vale mais nada, o endereço, que endereço? Tudo é incerto, só a dor é precisa, os olhos encharcados, o peito dilacerado, a vida agora passa em câmera lenta. A moça caminhava às margens do rio de águas turvas, a mata ciliar rasteira, tal qual era, agora, rasteiro o olhar, a estatura do brio humano, a mata rasteira como uma grama verde-oliva farta para enfatizar o jeep e as fardas que passavam ao lado verdejando tudo, com armas em punho, até os carros verdes pareciam ter voz, atitudes imponentes. 

A moça caminhava desolada às margens do rio, ela sabia que o percurso tinha exatos vinte e cinco quilômetros, estava amanhecendo. A mata ciliar, molhada pela relva, nessa época, meio do outono, fazia um friozinho para mostrar que os tempos seriam frios no clima e na alma.

O medo fez com que a moça não soubesse o que fazer com as mãos, se dava socos no ar, se cruzava os braços ou os abria ao vento, clamando por um futuro que a agarrasse pelas mãos, ela estava atordoada e machucada, saíra dos escombros do castelo da esperança que acabava de ruir, cujos estragos eram infinitamente maiores que quaisquer catástrofes ambientais.

E ela caminhava às margens do rio, era nítida a imagem, é a história de uma pessoa que acreditou num país, que sonhou, ingenuamente, com igualdades, que não tinha maldades, respirava o ar da graça, a graça dos jovens, a graça de quem saboreia uma canção, a graça de quem devora poemas e poesias, a graça de quem apaixona-se por um livro, a graça de quem carrega flores porque tem um jardim na alma e um espelho no olhar, a graça de quem compõe versos que exalam sua intimidade, a graça de quem vê pássaros dentro das flautas, a graça toda que, agora, queria ser sem graça.

Essa jovem mulher, caminhando cabisbaixa, por um minuto, ergueu a cabeça e viu as folhas esvoaçantes do outono, imaginou que fossem folhas de papel com inúmeras letras a bailar, acomodando as palavras e formando pares dançantes entre o amor e a poesia, a entrega e o horizonte, a força e a união.

Aos poucos, o vento da manhã e a metáfora proporcionada pelas folhas outonais bateram no rosto da moça caminhante e ela é esbofeteada pelas possibilidades que vislumbrou através das folhas, os medos deram lugar à paixão e ela se entregou à superação da dor do cotidiano que se mantém firme aos movimentos pesados e leves. As folhas do outono foram utilizadas como papel para escrever, porque os poetas são assim: escrevem histórias, sonhos, o passado, muitas vezes diferente na memória. Abrem as porteiras da nostalgia, descansam sobre os papéis, catam gravetos e caminham com as ilusões e a fé de que o mundo pode ser mais delicado.

A moça ficou às margens do rio catando as folhas para escrever a história do seu país, o país que está nas mentes de quem  doa sonhos... Há exato um ano, a moça revê folhas outonais renovadas, novo tempo, nova estação, o novo imutável apenas para as condições  climáticas, já no seu país... retrocessos, perdas, o mundo rastejante, dores comprimindo o coração.

De volta às margens do rio, à margem da vida, com escassez, com a solidão transbordada de plenitudes, com o desejo de alguns afagos a passear pelo seu corpo, lutando bravamente para que as amarguras não ocupem sua casa, pretendendo reorganizar sua morada, profundamente defensora do estado de ser feliz, a moça se refaz.

O espelho do seu olhar, hoje, possui manchinhas, nem as mansidões aplacam a intensidade dos vincos que acentuam-se na estrada a caminho do horizonte... onde as perspectivas ou o pote de ouro já não são mais vistos a olho nu, inventaram lentes que alteram e alterarão a realidade, a verdade, a mente dela e de toda a gente.

Mas a moça segue defensora do estado de ser feliz, acredita numa espécie chamada humana, ela é uma delas, seguirá respirando o ar da graça de quem carrega flores porque tem um jardim na alma.

De lá pra cá, no percurso de um ano, a moça escreveu longas cartas, viu coisas que jamais se esclareceram, chorou e sofreu por ela e pela espécie pertencente, acreditou e despencou, sempre na teimosia do estado de ser feliz.

Nesse instante, o de acordar, seu maior desejo é de que o outono nos seja leve!

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