Disseram que o Carnaval acabou! Exceção feita a princípio aos carnavalescos e donos de trio elétricos, para quem o Carnaval de 2018 está apenas começando.
De resto, temos o rescaldo, que nos remete aos procedimentos de combate aos incêndios, com referência a uma pequena brasa que permanece incandescente, aparentemente adormecida pela cinza de seu entorno, viva, indicando que a farra continua, mesmo que velada.
Começamos pelos dados assustadores do IBGE sobre o PIB, divulgados e analisados pela grande mídia como a pior crise já registrada na economia brasileira – na agropecuária (-6,6%), indústria (-3,8%) e serviços (-2,7%) –, sem, no entanto lembrar os índices de desigualdade social (GINI), mostrando a diminuição nos últimos 12 anos do aumento de renda da população, ou então sem divulgar a concentração da riqueza, fruto das aplicações financeiras, e não do trabalho, dos grupos (1,0% dos mais ricos detêm 30% da riqueza) que a todo custo tentam manter o status quo. Lembramos que cada índice resulta de muitas variáveis representando o passado, e tais afirmações não passam de um “economês” televisivo barato.
Seguimos com o enredo na continuidade da megadelação, até então sigilosa, do maior escroque internacional premiado, cujo currículo se estende a diversos governos e empresas, envolvendo aqui cerca de 200 políticos comprometidos com caixa dois, propinas, desvios, esquemas, lobbies, compras, benesses, promessas, conluios, com a expectativa da manutenção deste cenário até o próximo Carnaval, as eleições.
Em continuidade, alguns foliões insistirão persistentemente em encontrar o proprietário do tríplex, o sócio do sítio, o responsável pelo patrimônio, o detentor da fundação, o agenciador na compra de refinarias, suposto idealizador de medidas provisórias em favorecimento de empreiteiras investigadas, ou de si próprio, e a busca incessante na comprovação do dito e desdito, dando sobrevida à brasa com base em convicções.
A manutenção das notícias na mídia cooptada ficará por conta das reportagens requentadas e das prisões dos mesmos marqueteiros, doleiros, lobistas e, naturalmente, tesoureiros de campanha, alguns com grandes chances de serem agraciados pelo Guiness World Records – Edition 2017, na categoria dos mais contumazes indiciados pela Justiça.
Algumas “sociedades” desfilarão sob a égide das reformas: da Previdência, num passo acelerado para não deixar os integrantes tomarem pé do enredo “Previdência é Privada”; da educação, justificando a falta de vagas no mercado por conta do ensino inadequado; da política, cujos foliões entoarão marchinhas como “Me dá um dinheiro aí” ou “Quem não chora não mama”, em que umas acelerarão o passo, perdendo o ritmo da bateria, e outras, no entanto, atrasarão até a dispersão, perdendo os pontos e a torcida engajada. A trabalhista ficará por conta das empresas terceirizadas responsáveis pela da limpeza das vias, a um custo exorbitante, de acordo com as leis do mercado.
Sugestivos blocos darão a tônica do rescaldo, como “os Sharkboys e Lavagirl”, os representantes das tevês pagas citando diariamente as mazelas, municiados de forma acintosa e seletiva de assuntos requentados e numerados, ilustrando a propaganda das operações investigativas sobre tudo e sobre todos, exceção feita aos caciques e mandatários políticos detentores das prerrogativas de foro.
Os destaques, linha de frente, vez por outra serão lembrados em entrevistas induzidas, como celebridades ou alvo de fofocas, para que não caiam no esquecimento. Figuras folclóricas surgirão e “roubarão” (de fato) a cena, marcando a presença, como os fiscais da carne fraca, recentemente, que bem exemplificam a origem do termo Carnaval, em que “encarnam”, apesar de um grupo elitizado (escondendo-se por trás das máscaras), práticas atribuídas até então à ralé, colocando em xeque a moralização dos costumes.
Uma coisa é certa, apesar de a festa ser pagã, a sobrevida desses galhofeiros durante o rescaldo dependerá exclusivamente dos seus padrinhos, e isso com certeza eles têm.