Entramos na mágica estação de Outono, das folhas que se desprendem e no chão, desfalecidas, esperam para revigorar sua arvore de origem em forma, decomposta, de nitrogênio. Todas vão fermentar-se, decompor-se e tornarem-se nutrientes para continuar o ciclo da vida. Por séculos obedeceu a estabilidade deste fenômeno mágico da natureza. Por isso mesmo encontraram equilíbrio sem outras relações simbióticas. Diferentemente, no outono humano a morte do corpo è pesarosa, mesmo obedecendo a idêntico ciclo da folha caída.
O ritual da morte humana é então magnificado para que o corpo físico passe a ser um corpo espiritualizado, tornando-se uma alma na vã esperança de reverenciar a raça humana através do corpo sem vida. Os cemitérios das folhas caídas tornam-se locais nutritivos para nascimento de outras. O cemitério humano torna-se um local de pesar e saudades apenas. A mutação da vida acontece com as folhas e com os homens. Mas o gênero humano não aceita ser transformado em matéria orgânica. Três séculos de domínio sobre a natureza e o afastamento da religiosidade deixaram-o prepotente demais para enxergar sua verdadeira origem – a de que è apenas parte do ciclo da vida terráquea. Por isso mesmo teve que se defrontar com sua maior algoz – a insatisfação. Conheceu-a no paraíso da mitologia de Adão e Eva mordendo o fruto proibido, acompanhando a humanidade na sua evolução, è ainda acrescida da imprevisibilidade, da inquietação que somadas tomam a forma de angustia, impossibilitando qualquer sonho de felicidade coletiva.
Tentando superar este limite, o gênero humano passou então a estudar a estabilidade e a ocorrência dos fenômenos como parâmetros. Direcionou-se para a natureza, querendo nela encontrar o que não encontrara em si, passando a controlar parte da natureza, menos os elementos que regulam os outonos dos anos – a água, a terra, o ar e o vento. Acostumado com a regularidade, apos três séculos de um modelo social que inventou junto com a Revolução Industrial com estilo predador, buscou soluções para sua insatisfação, mas acabou construindo uma irregularidade nas estações expressando a instabilidade do relacionamento homem x natureza. A insatisfação mal dominada o levou longe demais. As quatro estações que durante séculos governaram plantações e colheitas da subsistência humana veem sua relação de estabilidade quebrada, expressando-se no aquecimento global.
Mas o aquecimento global expressa outra face mais perversa do gênero humano - um egocentrismo exacerbado. Se por um lado a maior facilidade para a sobrevivência, conforto e segurança aumentou o espaço da identidade pessoal, por outro lado comprometeu qualquer bem de caráter coletivo, incluindo o mais valioso deles - os recursos naturais com suas imensas possibilidades de suporte a vida. Construiu-se o ciclo do medo e da insegurança, alimentando uma angustia silenciosa e corrosiva com a predação do meio ambiente por conta de uma ganância que direciona sua voracidade a pessoalidade de quem por ela é contaminado.
A ciência moderna caracterizando-se pela dominação e controle e apoiada no conhecimento e na previsibilidade, muniu-se de autoridade para desmistificar o mundo, explicando inclusive os mistérios da religiosidade.
Hoje temos todas as coisas explicadas, mas sem encanto. Certo vazio permanece no ar inspirando medos do amanha, a ansiedade aumenta e provoca um desarranjo geral no corpo físico e a angustia se torna perigosa por acabar com a expectativa possível.
Mas pior que a insatisfação è a solidão afetiva. O gênero humano não consegue mais se ligar a ninguém e a nada e se sente culpado por isso. Teima em manter a imagem do ser humano onipresente e onipotente, mas ser superpessoa todo dia cansa muito e compromete a beleza de cada um. Temos a tragédia grega revivida.