É extremamente plausível que os protestos contra a reforma da Previdência se voltem contra os bancos, que figuram entre os principais devedores previdenciários.
Experimente atrasar a conta do cartão de crédito ou simples crediário por apenas um mês: as ligações serão constantes, com cobranças recorrentes para quitação do débito. Em pouco tempo, o nome do devedor irá contar no Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) com todas as restrições que acompanham a negativação. O mesmo critério não é utilizado para quem deve bilhões e, ainda, lesa os trabalhadores. Por isso, é extremamente plausível que os protestos contra a reforma da Previdência se voltem contra os bancos, que figuram entre os principais devedores previdenciários no País.
A indulgência com as grandes empresas e instituições bancárias transformou-se em uma bola de neve impagável. Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador-geral da Dívida Ativa da União, Cristiano Lins de Moraes disse que, por trás dos débitos, há situações de fraude, crimes de sonegação e esquemas fraudulentos sofisticados.
Se fossem pagos, representaria quase três vezes o deficit atual, de R$ 149,7 bilhões. Mas, do valor total, R$ 423,9 bilhões, 58% são classificados de difícil recuperação, ou seja, será esforço e tempo perdidos. Mesmo assim, deixaria um débito, de longe, muito menor do que a atual.
A massa falida da Varig encabeça a lista dos devedores, com montante que ultrapassa os R$ 4 bilhões, seguida da JBS S/A, com R$ 2,3 bilhões. Mas é justamente a presença dos bancos nesse ranking que revolta a população: entre os primeiros, estão a Caixa Econômica Federal, com débito de R$ 1,235 bilhão; Banco do Brasil, com R$ 1,136 bilhão; Banco Bradesco, com R$ 674 milhões e Banco Santander, R$ 269 milhões. Juntos, somam valor de R$ 23 bilhões. Todos contestam a conta ou o sistema de cobrança.
Seja qual for o motivo, os números da Procuradoria-geral da Fazenda mostram que, pela maioria, não há o mínimo interesse em negociação. Mesmo com as ações judicias, o montante recuperado não chega a 1% do total devido, conforme dados do ano passado, quando foram pagos pouco mais de R$ 4,1 bilhões. Quem está pagando esta dívida bilionária é a população.
A reforma da Previdência, embora necessária, mantém a mesma política indulgente com os grandes devedores, mantendo o foco na ampliação da idade de aposentadoria, afetando a camada mais sensível e desprotegida dessa cadeia. As manifestações da última semana foram importantes justamente para alertar que não é possível que esta conta continue passando em branco. É injusto e revoltando verificar que quem deve bilhões e lança mão de todos os artifícios para contestar e não pagar a dívida é o mesmo a utilizar artifícios que beiram ao assédio e constrangimento para que seus “clientes” paguem as dívidas, irrisórias perto dos bilhões devidos por eles.
O próprio governo colabora para que esta dinâmica cruel continue, ao permitir que a política de dois pesos e duas medias mantenha-se ao longo dos anos. Sem reforma verdadeira, que mexa no bolso das grandes instituições bancárias, difícil crer que haverá mudança significativa e de resultado.