Com cenário desolador no horizonte, é difícil traçar outra estratégia de gestão senão a de evitar o desastre total.
Os primeiros 100 dias de governo são considerados de extrema importância para imprimir a identidade da nova gestão. É o momento de mostrar projeto consistente de administração, promovendo mudanças importantes e cruciais, traçando plano estratégico de como a equipe que está entrando irá trabalhar dali para frente. Isso, na teoria. Raramente é o que acontece na maioria dos municípios brasileiros. Até agora, muitos estão apenas apagando incêndios e agindo de maneira emergencial.
A Prefeitura de Campo Grande não foge à regra. Eleito com 241.876 votos válidos, o equivalente a 58,77% dos eleitores, Marcos Trad (PSD) tem a difícil missão de reerguer uma cidade que, infelizmente, sucumbiu ao caos de administração desastrosa e ineficiente. De 2013 a 2016, a prefeitura da Capital oscilou entre o destempero de Alcides Bernal e o deslumbramento de Gilmar Olarte, ambos igualmente ineficientes. No decorrer desse período, as consequências foram ficando cada vez mais evidentes, com atraso nos salários dos servidores, precariedade no sistema de saúde e desleixo na manutenção da cidade, evidenciado pelos milhares de buracos que tomaram conta das vias da Capital. No caixa, deficit de R$ 30 milhões e dívida com prestadores de serviço, empreiteiras e terceirizados.
Com cenário desolador no horizonte, é difícil traçar outra estratégia de gestão senão a de evitar o desastre total. Durante a fase de transição, já se sabia que a situação era difícil, mas a equipe de Marcos Trad deparou-se com quadro muito mais preocupante. Em fevereiro, anunciou plano de reduzir despesas em R$ 215 milhões, passando de R$ 1,581 bilhão para R$ 1,366 bilhão. Para isso, a meta é enxugar custeio nas secretarias em 20%, com exceção do setor da educação, com corte de 10% e saúde, sem alterações. Naquele período, o secretário de Finanças, Pedro Pedrossian Neto, disse que era hora de apertar os cintos, pois 2017 seria o ano da travessia do deserto. Nada mais verdadeiro.
Não se pode dizer que a gestão tenha uma identidade formada. O que se fez, até agora, foi pagar dívidas e tapar buracos, neste caso, em parcerias com governo do Estado e Exército. O serviço, aliás, tem sido alvo de reclamações de alguns moradores, já que alguns buracos voltam a surgir depois de temporal. Em pesquisa feita pelo Correio do Estado, a operação de manutenção das ruas recebeu nota 5 da maioria dos entrevistados.
No mesmo período, a aprovação da gestão de Trad era de 45,40%, mas chamou atenção o índice dos que se consideraram indiferentes, dentro da classificação regular/desaprova: 43,64% do total. É demonstrativo da dificuldade da população em conseguir diferenciar o novo das medidas paliativas ou emergenciais. 100 dias é pouco tempo para marca indelével de gestão. Porém, há de se levar em conta a inevitável necessidade de arrumar a casa e aparar as arestas. Mudanças essenciais e de grande porte somente devem ser verificadas a partir de 2018. Por enquanto, só o controlar das chamas já é ponto positivo para qualquer gestor.