Artigos e Opinião

ARTIGO

Ruben Figueiró: "O buraco e o atalho"

Ex-senador da República

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Um dos mais insignes homens públicos que conheci por estes caminhos espinhosos da militância política foi o inolvidável deputado Ulisses Guimarães, a quem nossa pátria muito deve pela sua corajosa quão intrépida luta pela restauração da democracia no decorrer das últimas décadas do século 20.  O doutor  Ulisses, personalidade de sólida cultura humanística, profunda vivência política, orador primoroso, espírito rutilante para frases de espírito e de impacto, dele retiro esta: “Na caminhada, no caso de dificuldade (buracos, atoleiros) não arrisque, procure um atalho...”.

Lembrei-me desse prudente conselho do “senhor das diretas” (como Ulisses era conhecido durante a epopeica campanha pelas DIRETAS JÁ, de saudosa memória) para estes momentos atabalhoados de profundas divergências sobre a viabilidade e conveniência das reformas pleiteadas pelo presidente Temer (a trabalhista e da Previdência).

Penso, ninguém que atento à atual conjuntura social e econômica, de efeitos danosos, pode negar a imperiosidade de tais mudanças. Em meu entendimento, houve por parte do governo federal um açodamento para trazer a lume aquelas polêmicas reformas. Macaco velho na vivência na perigosa traiçoeira floresta que é o Congresso Nacional, o presidente Temer deveria ter de início, para varrer o terreno cheio de buracos e atoleiros, proposto a reforma político-eleitoral e, assim, escoimar da floresta os animais peçonhentos que lá vivem e gozam com o propósito definido – com raras exceções, acentuo – de lá permanecerem por eleições sem fim.

Na semana que passou, o jornal O Estado De São Paulo, vanguardeiro dos ideais democráticos (missão que assumiu há quase dois séculos), lançou o DEBATE ESTADÃO: A REFORMA POLÍTICA QUE QUEREMOS.

Figuras expressivas do pensamento político nacional, eis José Álvaro Moisés, José Eduardo Farias, Jairo Nicolau, Rubens Barbosa, entre tantos outros professores universitários, intelectuais e cientistas políticos, debateram à exaustão o atual quadro político, suas mazelas, suas incongruências, o mal cancerígeno da proliferação dos partidos (hoje chegam a 35), a endêmica corrosão dos valores éticos e morais, elevando a limites inadmissíveis a corrupção, que está estiolando o corpo ainda sadio da nação. 

Propõem os mestres em declaração unânime: mudanças no sistema político-partidário são medidas urgentes; adoção de, ao menos, três novas regras, com destaque à cláusula de barreira (a força eleitoral do partido é quem justificará a sua sobrevivência como partido); fim das coligações partidárias; contenção das despesas de campanha.

Volto à estaca zero. Se o governo Temer tivesse ouvido o forte clamor pela reforma política como passo inicial de seu projeto de governo, clareador do caminho a percorrer para alinhar depois as reformas da Previdência, trabalhista e outras tantas reclamadas, não estaria a enfrentar as dificuldades apostas por amplos setores do Congresso Nacional, temerários, acovardados pelos urros dos leões que os espreitam nas próximas eleições de 2018. Se Temer tivesse se lembrado do conselho experiente de seu saudoso correligionário Ulisses Guimarães, teria procurado antes um atalho.

Artigo

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