Recentemente concluí a leitura do livro “Tancredo Neves, A Noite do Destino”, de autoria do consagrado jornalista político José Augusto Ribeiro. Foram 836 páginas lidas com natural interesse, eis a biografia de um dos homens públicos cuja vida foi assinalada pela presença atuante e marcante nos episódios que definiram um período turbulento de nossa história republicana, em mais de dois terços do século 20: Tancredo Neves.
Fui daqueles que teve a oportunidade e a honra de conhecer bem de perto Tancredo, justamente num daqueles momentos, no auge do regime militar, em que sopravam ventos araganos agitando os quintais dos partidos políticos. Precisamente era novembro de 1980. Extintos os partidos de fachada, a ARENA e o MDB, a nova lei permitiu uma leve brisa para a estruturação de novas agremiações. E assim foram organizados o PDS, de apoio ao sistema imperante; o PMDB, de oposição, capitaneado por Ulisses Guimarães; o PP – Partido Popular –, sob o comando comum de Tancredo Neves e Magalhães Pinto. Dois partidos de oposição democrática. Além desses, o PDT de Leonel Brisola e o PSB de Miguel Arraes, ambos de oposição radical.
Em novembro de 1980, como afirmei acima, por discordar de uma decisão unilateral e arrogante do presidente da República, João Figueiredo, ao destituir do cargo o governador de nosso estado, Marcelo Miranda, acompanhei os senadores José Fragelli, Rachid Saldanha Derzi, Antonio Mendes Canale, o deputado federal João Leite Schimidt, solidários com o ex-governador no rompimento político com a situação, num gesto destemido e inédito quando as franquias democráticas eram tênues, e fomos para a oposição.
Nossa opção foi pelo Partido Popular, então presidido pelo senador Tancredo Neves. Enfrentamos arreganhos e ameaças, mantivemo-nos resolutos e firmes. Foi um breve período, pois logo as forças governistas criaram artifícios que impediam coligações interpartidárias e a obrigatoriedade da chamada votação vertical impedia o eleitor de votar em candidatos de partidos diferentes. Foi um tiro mortal à sobrevivência do Partido Popular, levando-o ao ingresso na legenda do PMDB.
Nesse curso transitorial, mantive reiterados contatos com o senador Tancredo Neves e dele recebi constantes manifestações de consideração e apreço, bem como pude avaliar a altitude de sua formação cultural, humanística e de hábil gestor nos meandros da política. Tal impressão sempre presente em todos esses anos que já se foram – quase quarenta – ganhou novas luzes ao ler o livro de José Augusto Ribeiro sobre Tancredo.
Registro, porém, um lapso no livro que a bem da verdade devo realçar. Quando Tancredo Neves, às vésperas de sua posse como presidente, estava internado no Hospital de Base, em Brasília, para uma cirurgia de emergência, o mundo político, sobretudo, suas lideranças mais expressivas, começou discutir a quem caberia assumir a Presidência no lugar de Tancredo. Aqueles momentos dramáticos foram recordados nas biografias escritas sobre Ulisses Guimarães, general Leônidas Mendes Gonçalves, José Sarney, na autobiografia de Saulo Ramos e agora nesse livro sobre Tancredo. A discussão tomou a madrugada do dia da posse até que surge a voz firme e autorizada de quem tinha o poder constitucional de empossar o presidente interino. A autoridade era do presidente do Congresso Nacional e presidente do Senado da República, o nosso coestaduano senador José Fragelli.
Tal fato histórico, pouco ressaltado pelos que tentaram relatar aqueles momentos dramáticos de nossa história, me foi dito pelo meu saudoso amigo Fragelli: “Presentes Ulisses Guimarães, general Leônidas Mendes Gonçalves (já designado ministro do Exército), o ministro João Leitão de Abreu (chefe da Casa Civil, do governo Figueiredo), senador Fernando Henrique, perguntei a todos qual a autoridade que presidiria a posse. A resposta unânime: você! Então está decidido, o empossado será o vice-presidente José Sarney”.
Quem conheceu e conviveu com José Manuel Fontanillas Fragelli tem conciência de que atitude sobranceira só poderia partir de um estadista, e o Fragelli o era.