– Ah, isso é que dá dinheiro! Olha! Faz pouco tempo que abriu o negócio e já está montado numa caminhonete novinha.
Foi o que ouvi numa tarde calorosa de sábado. Não será ético contar a paróquia e o santo, mas o milagre pode.
O sujeito vê seu vizinho de comércio passando com uma Toyota Hilux zero-km e logo faz esse comentário. Tudo isso parece muito óbvio: ramo de negócio bom, negócio bem-sucedido, muitos clientes, pouca concorrência, muito lucro, mas, acreditem, não é bem assim.
À mesa do bar, sempre cercado pelos amigos, esses papos rolam. Conversa furada. Falam da vida alheia, futebol, economia, política e negócios. Ali, soluções para tudo aparecem e, quando alguém passa na rua, vira pauta da conversa. A conversa só é interrompida quando um grita pela próxima cerveja. E tem de estar gelada!
Rapidinho alguém contrariou o sujeito, dizendo:
– Essa Hilux foi comprada com dinheiro de herança. O dono que me disse. Sonhava ter uma caminhonete zero e comprou.
Agora, que fique claro: nem tudo que reluz é ouro. O brasileiro tem a notoriedade de ser bom empreendedor, mas completo afirmando que, em muitos casos, é um bom sonhador. Sonha abrir um negócio e abre, sem saber se sobreviverá. Pesquisas mostram que milhares de negócios surgem, contudo, quebram com menos de um ano de vida.
Uma das explicações é que o brasileiro abre seu negócio sem ter o mínimo de conhecimento do mercado em que se está inserindo. Há aqueles que gostam de livros e montam uma livraria. Outros gostam de cerveja e montam um boteco. Há quem faça coisa pior: vê o sucesso material aparente de alguém e copia o negócio sem a mínima informação. Sucesso material pode vir por várias fontes: herança, indenizações, ajuda de familiares e outras.
Quando vamos pensar em montar um negócio, temos de ver se será viável. Fazer um plano de negócio, pesquisa de mercado e procurar auxílio de alguém especializado são medidas que ajudam na diminuição dos riscos. Isso não será um gasto, mas, sim, um investimento para o negócio.
Nas aulas que ministro na UFMS, quando vou falar de sistema econômico, desafio os alunos a montarem um negócio fictício. Para isso, devem responder a três questões fundamentais: O que produzir? Como produzir? Para quem produzir? Ainda solicito que se arrisquem a trazer o volumede produção.
Lembro-me de uma passagem que sempre cito nas aulas. Um aluno queria montar uma fábrica de velas e me perguntou se era viável. Logo questionei:
– Vela? Visivelmente simples. Parafina e um barbante, mas qual vela seria? Religiosa? De metro para pagar promessa? Branca para vender em Finados? De aniversário? De números? De 7 dias? De cor, para umbanda? Decorativa? Aromatizada? E a quantidade? Quantas pretende produzir?
Questionei também como seria produzida. Manualmente? Mais intensivo em máquinas? Produção terceirizada? E, por fim, veio a última questão: Para quem produzir? Quem seria o comprador das velas?
Em termos gerais, a reação do aluno foi de espanto – talvez por não ter respostas para as questões que formulei –, o que também revela o grande engano que cometemos quando pensamos em abrir um negócio no absoluto escuro. Mesmo que queiramos produzir velas...
Isso escancara os nossos equívocos e fragilidades num país que pensa que tem soluções para tudo na mesa de bar. Só não haverá solução se a cerveja não estiver gelada.