O que esperar do combate à criminalidade nas ruas se as forças de segurança não conseguem dar conta nem da vigilância nas prisões?
Os limites impostos pelas grades das celas das prisões brasileiras há tempos deixaram de representar a restrição de liberdade necessária para tirar bandidos do comando no mundo do crime.
Diferentes estratégias são usadas para manter contato com aliados do lado de fora e, dessa forma, continuar gerenciando negócios lucrativos.
Nem mesmo o rigor e a segurança reforçada das penitenciárias federais – que são tratadas como modelo no País – impediram o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, de continuar envolvido no tráfico de drogas e, ainda, conseguir ampliar sua atuação, incluindo controle de máquina caça-níquel, venda de cigarros, cesta básica, entre outros, como desvendou operação deflagrada ontem.
Em 2007, quando Beira-Mar estava na Penitenciária Federal de Campo Grande, policiais federais descobriram que ele manteve controle do tráfico de maconha e cocaína para morros do Rio.
O comando da quadrilha passou para sua esposa, Jacqueline Alcântara de Morais. Desta vez, ele usava pedaços de papel para repassar recados por meio de intermediários, num esquema que envolveu seus familiares e outro detento. Nas penitenciárias estaduais, não é preciso tanto trabalho.
Celulares são comuns nas celas, tanto que nas operações pente-fino, feitas esporadicamente, dezenas deles são apreendidos, a exemplo do que ocorreu no dia 17, em Dourados. Ainda, drogas e armas artesanais sempre são encontradas.
O que esperar do combate à criminalidade nas ruas se as forças de segurança não conseguem dar conta nem da vigilância nas prisões? Esse descontrole corrobora com o cenário desastroso que temos atualmente: aumento de roubos, homicídios e tráfico de drogas.
Sem apoio, o cidadão se protege como pode e acaba “preso” dentro de casa, tendo de apelar para cercas elétricas, grades, alarmes e outros dispositivos para suprir essa inércia do poder público. Há uma sucessão de deficiências.
A fiscalização nas estradas e na região fronteiriça é insignificante diante do aparato das organizações criminosas. Assim, por mais que diariamente tenhamos apreensões consideráveis de maconha e cocaína no Estado, a quantidade é ínfima perto do total que chega livremente ao País todos os dias.
A polícia repressiva é insuficiente para conter as ilegalidades. Por isso, mostra-se a necessidade gritante de estratégias que avancem da esfera policial, ampliando a complexidade do problema a atuações nas áreas social, econômica, da saúde e, principalmente, da educação.
A visão limitada faz com que tenhamos ciclo interminável de operações policiais, em que investimentos precisam ser ampliados e o poder público alega não ter recursos suficientes.
O combate à impunidade exige esforços conjuntos das ações repressivas, do Judiciário e do sistema carcerário, para que as punições aplicadas não sejam efêmeras e fictícias, como ocorre atualmente.
Infelizmente, a mudança ainda parece distante num País onde as denúncias de ilegalidades envolvendo políticos viraram rotina. A falência do sistema carcerário é apenas uma amostra do descontrole generalizado.