Artigos e Opinião

Crônica

Crônica de Raquel Naveira: "Castelos"

Crônica de Raquel Naveira: "Castelos"

Redação

17/10/2017 - 07h30

Sempre quis conhecer um castelo. Que emoção aquela viagem a Londres, num dia nebuloso, em que vi pela primeira vez, ainda da estrada, o Castelo de Windsor! Que relíquia medieval! Que mergulho no passado, numa realidade completamente distinta da nossa!

De longe, inacessível, numa espécie de clareira, erguiam-se as torres, as muralhas, os jardins verdes e imponentes. Foi ali que a rainha Elizabeth II passou sua infância, no maior e mais antigo castelo do planeta, que sempre foi seu refúgio, pois deve pesar muito aquela coroa sobre sua cabeça. Quase perdi o fôlego. Talvez seja uma miragem.

Talvez desapareça como que por encanto. Talvez ao meu lado se aproximem cavaleiros. Talvez lá dentro durmam belas jovens e padeçam suspirosos os príncipes.

Talvez mais de perto ele seja negro, perdido num fosso, sem ponte levadiça, habitado por almas que penam amarradas em correntes de ferro. Talvez seja branco, diamante iluminado de tochas, fincado no cimo do monte. Ou cinzento, de pedras e ângulos que formam labirintos, escondem calabouços, galerias cheias de quadros dos antepassados, armaduras e artilharias de defesa.  

Existem mesmo os castelos! Que espanto! Este surgiu da conjunção de meus desejos mais acesos, dos projetos que ainda estão em andamento para a realização plena do meu destino. É material, eu sei, mas suspenso nas nuvens.

Lembrei-me de um livro místico: “Castelo Interior ou Moradas”, de Teresa D’Ávila. Nascida em 1515 em terra de Castela, sua vida coincide com o alargamento do mundo conhecido, através das navegações e descobertas.

Teresa, rebelde reformadora, não descreve aventuras exteriores em terras distantes, mas aventuras pelos caminhos da morada interior. O livro é uma conversa; um guia seguro; um roteiro para os que vão partir (e todos partiremos); para os voos de migração, pois somos pássaros. Ela cria uma estrutura maciça, uma grande metáfora: toda alma é um castelo e nele mora um rei, sentado na sala do trono.

Para algumas pessoas é o próprio ego. Para outras, o Cristo, diante do qual nos prostramos. Os ferrolhos da porta só caem com rogos, súplicas, orações. Há vigias por toda parte. Rocas, fusos e teares urdindo tramas e intrigas. Monges que passeiam com vestiduras brancas, encapuzados, balançando turíbulos de incenso.

Há muitos aposentos, chaves misteriosas como enigmas. A gente do castelo são as faculdades: inteligência, vontade, memória, imaginação, sentidos. São sinistros mordomos, parentes, hóspedes, bobos da corte, servidores. Ajudam, atrapalham, confundem, encostam-se na cerca que é o nosso corpo.

Há também demônios ocultos nas pilastras, cobras, ratos, escorpiões e todo tipo de vaidade. Às vezes essas criaturas morrem, repentinamente, elas que nos fizeram gozar de tanta frivolidade. Enchemo-nos de sofrimentos, inquietações, dúvidas, contradições.

Continua­mos, até o fim, percorrendo os corredores desse castelo, nas sendas do espírito, pois fora dele não há segurança nem paz. Temos que procurar viver bem dentro do nosso castelo. Acharmos sossego junto à lareira, ao lado de um cão amigo. Não entraremos no céu, antes de entrarmos em nós mesmos.

Com certeza, rainhas já choraram solitárias, decepcionadas e humildes, neste castelo. A humildade sara as feridas. Precede a honra.

Penso que viver no silêncio e na esperança, regra das carmelitas descalças como Teresa, é um bem, um tesouro, um refrigério. Aliás, caminhando milhas e milhas antes de dormir pelo meu imenso castelo, nem quero mais pensar. Estou cansada de pensar. Entre o abrir e o fechar dos olhos, quero apenas amar.

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