Afinal foram além de setenta anos de militância política desde aquele memorável comício pela candidatura à Presidência da República do brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN, no processo de redemocratização do País, após a queda do Estado Novo, obra e arte do ditador Getúlio Vargas.
O comício foi pela manhã do dia 25 de agosto de 1945. No Cine Alhambra, sito na Avenida Afonso Pena, onde está hoje em construção um empreendimento da família El Kadri.
Um parêntesis: Campo Grande naquela época possuía dois recintos para espetáculos cinematográficos, o Alhambra e o Santa Helena, este na Rua Dom Aquino logo abaixo da confluência desta com a Rua 14 de Julho, eram pontos de lazer dos campo-grandenses.
De lá para cá vivi momentos de intensa atividade e de marcantes emoções ao percorrer os caminhos quase sempre pedregosos da política.
De início a que agita a mocidade, desejosa de mudanças, rebelde à ordem vigente tendo como palco os grêmios colegiais, os centros acadêmicos das faculdades e daí se espraiando com o tempo pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pelos partidos políticos, os quais àquela época concediam muito prestígio à militância jovem ao estimular suas tendências democráticas e ideológicas.
Em todos esses estágios de minha juventude dei continuidade do fervor pela política, não fuji da luta que me anima até estes oitenta e seis anos. Jamais permiti que os ideais que agasalhei de início fossem obumbrados pela atroz pátina do tempo.
Duas lembranças desejo destacar nesse instante de reminiscências que povoam a minha memória. Retiro dela duas passagens que guardei. Lembro-me que nos primeiros anos da década de setenta do século passado realizava uma visita política pelo município de Rio Verde, quando da campanha eleitoral para prefeito de meu valoroso companheiro José de Oliveira Santos (carinhosamente conhecido como “Zé Mijão”), afinal vitorioso.
Fomos a um comício na localidade Colônia Paredes e sob um sol canicular ninguém prestava atenção nos oradores. Quando de minha vez, mudei o tom e o sentido das minhas palavras ao provocar a platéia: estão vendo esse chapéu panamá na minha cabeça? Diante da atenção dos presentes e onde havia muitas moças, disse, todas as vezes que o coloco na cabeça de uma moça, ela se casa em seis meses... foi um alvoroço, a moçada subiu ao palanque e passei a “posar” o chapéu sobre suas esperançosas cabeças.
Dois anos depois, em outra campanha eleitoral, voltei à Colônia Paredes, usando o mesmo chapeuzinho, quando um cidadão me aborda : “ sabe deputado, o chapéu” santo Antônio” fez milagre, muitas moças se casaram e outras tantas “embarrigaram”.
A notícia correu, em todos os comícios que participei daí para frente, convocando o chapéu santo Antônio já casamenteiro que atendia o apelo da moçada como também de muitas balzaquianas...
A outra lembrança vem do apelido de “deputado operário” que recebi durante a solenidade de inauguração do primeiro centro educacional no então distrito de Nova Alvorada hoje emancipado do município de Rio Brilhante.
Tal apelido deu motivo para que alguns meios de comunicação passassem a chamar-me de “deputado formiguinha” para significar a minha operosidade parlamentar. Muito me honro destes dois epítetos, até hoje relembrados pelos que me conhecem: deputado formiguinha e portador do santo Antônio casamenteiro, chapéu que conservo já todo roto, mas como testemunho de episódios inusitados da política.